Rio de Janeiro

Diálogos

Trabalho Em Andamento

Atualizado: 15 de Set de 2020

Por: Natália Seixas

Data: 20/06/2020


Pandemia. Black Lives Matter. Ancestralidade. Minha religiosidade. Desenvolvimento espiritual. Essas palavras vem rondando minha mente, especialmente por causa dos últimos acontecimentos globais. Honestamente, nem sei por onde começar a falar o que preciso dizer. As coisas estão meio confusas na minha cabeça e tudo está conectado de certa forma – o que dificulta eleger com qual dos assuntos inicio esse texto. Então vou começar com uma simples afirmação.

Eu sou negra de pele clara. Parece ser muito fácil de se escrever essas poucas palavras e, para alguns, até venha à cabeça: “tá e daí?”. E daí que, antes do final de 2018, eu nunca teria dito tal frase porque eu não me percebia como negra. Sabe por que? Na minha certidão vem escrito aquele termo que causa tanta controvérsia: o infame “pardo”. E sempre aceitei isso, sabe? Eu nunca tive isso questionado, pelo menos não até 2018.

Eu sou formada em História pela UFRJ e, inquestionavelmente, tive aula com os melhores pesquisadores do Brasil. E, ainda assim, saí de lá sem nunca ter aprendido sobre a história do censo realizado pelo IBGE ou a questão controversa do vocabulário de definição de raças no Brasil. Para ser muito sincera, apesar de ter aprendido a fazer muito bem pesquisas acadêmicas, tive pouquíssimo contato com coisas como os movimentos feministas e os movimentos negros. Nossa, nunca nem foi comentado em sala sobre os movimentos LGBT como Stonewall. E estamos falando da UFRJ entre 2009 e 2016, tá? É quase ontem isso.

Então, imagine o quão branco e predominantemente classe média alta aquela faculdade é. Eu não me tornei feminista, comecei a entender o que é racismo e o mundo LGBT por causa da minha faculdade que, por ser um centro de ciências humanas, deveria ter me ensinado sobre tudo isso. É muito absurdo de se pensar o que falei. Mas o que eu posso dizer além de que a culpa é do corpo docente? É um monte de homem branco, muitas vezes hétero, entre seus 40 e 60 anos vindo de família de classe alta, logo pouco lhes interessam movimentos sociais de minorias. Eram poucas mulheres em comparação e foi com elas que aprendi algo fora daquele escopo de europeu branco hétero. Eu fui aprender sobre isso tudo no Tumblr, uma plataforma de blogs americana que não era muito famosa aqui no Brasil. Lá eu li sobre os movimentos feministas, aprendi sobre misoginia internalizada, gaslighting, a importância da interseccionalidade, transfobia, racismo institucional e tantos outros temas que nunca nem escutei dentro de sala de aula. Então, quando o Tumblr faz um papel melhor em educar sobre problemas sociais e justiça social, algo de errado tem com sua instituição de ensino. Especialmente uma que é considerada uma das melhores faculdades de História do mundo. Mas eu não vim falar dos problemas do Instituto de História (IH) como instituição de ensino elitista, meu ponto aqui é sobre como o IH não me fez questionar minha identidade racial.

Esse questionamento só veio mesmo em 2018, quando já estava na Faculdade de Letras, também da UFRJ – que é quase um outro mundo quando comparado à minha experiência no IH. Não vou dizer que o questionamento veio dentro de sala de aula, por que não veio. Contudo, veio do ambiente universitário em si – o que é uma evolução em relação ao IH. Gostaria de frisar que essa foi minha experiência como aluna de lá entre os anos 2009 e 2014 (2015 e 2016 não contam porque eu basicamente só ia pra outro campus, o da Praia Vermelha, ou ficava em casa pesquisando minha monografia), as coisas podem ter melhorado desde então – pelo menos eu espero que sim. Enfim… O tapa na cara para eu acordar veio quando um amigo da época, branco, por sinal, ficou particularmente confuso quando eu disse que não era negra. Ele falou que sempre me leu como negra e que imaginava que minha constante preocupação com justiça social vinha disso. Não vou negar que aquilo mexeu comigo de uma forma que eu fiquei até sem chão. Eu meio que entrei em negação na época e resolvi deixar quieto. A vida sendo como ela é, fez com que, quase um mês depois, uma amiga minha da faculdade – que é negra e ativista – me questionasse sobre minha identidade racial. Foi aí que eu parei e pensei, ‘não, pera, tem algo aí porque duas pessoas basicamente me falaram que me liam como negra, mesmo que eu não me identifique como tal’. E foi aí que começou o meu questionamento e minha real desconstrução em relação ao racismo, principalmente o internalizado.

Eu tenho a sorte de que Soulmate é uma mulher negra e ativista, então foi alguém com quem eu pude conversar e que me explicou muita coisa sobre negritude e o que é ser uma mulher negra. E que ela olhava para mim e claramente eu sou negra para ela. A partir dali, aprendi muito. Aprendi que ser negra não se limita a ter um tom escuro de pele ou ter cabelo crespo (a primeira coisa que lembro de dizer para negar minha negritude foi ‘meu cabelo não é afro, é quase liso então não posso ser considerada negra’ *inserir aqui um grande facepalm*). Aliás, ser negra inclui muitos tons diferentes – até mesmo o meu. Eu tenho alguns traços caracteristicamente negros como, por exemplo, meu nariz. Eu sei que sou descendente direta de negros, portugueses e indígenas, e mesmo assim fiz o disparate de tentar negar isso. Pensamentos racistas estavam profundamente enraizados na minha cabeça, ainda que na época eu já estivesse trabalhando para desconstruir o meu racismo. E eu real tentei – e tento – me educar, sabe?

Eu li sobre o plano de embranquecimento da população brasileira, por isso o vocábulo pardo se fez necessário. O termo pardo ajuda a negar as raízes negras das pessoas. Aprendi que muitas atitudes que tive e coisas que falei eram extremamente racista e tenho ainda muitos pensamentos racistas internalizados. Não estou passando pano para mim mesma, mas eu fui criada dentro de um sistema estruturalmente racista. O que eu posso fazer é reconhecer esse racismo e dizer ‘isso está errado’ e reaprender. E isso é um trabalho inacabável. Especialmente tendo minha posição de privilégio como parda. Eu sei que não sofro o mesmo tipo de discriminação que pessoas com o tom mais escuro de pele sofrem. Na verdade, nem me recordo de ter passado por alguma situação que fui vítima de racismo. Mas também, como Soulmate me falou, eu nunca visitei países realmente brancos (sequer saí do Brasil, para falar a verdade) e nunca fiquei em um ambiente exclusivamente branco. Soulmate fala que eu só não passei ainda por uma situação de racismo porque eu nunca fui a mais escura da sala e acho que ela tem razão. Mas eu reconheço esse privilégio e que nunca irei entender o que mulheres negras de pele escura com cabelo crespo e feições caracteristicamente africanas passam. Eu aprendi que posso me assumir negra sim e que não estou atrapalhando ou tomando o espaço de mulheres “verdadeiramente negras”. Aliás, eu era parte do problema das pessoas que rejeitavam serem negras por não se encaixarem no “padrão de pessoa negra”. Eu ativamente escolhi – e escolho – não ser uma dessas pessoas.

Ser negra, para mim, é fazer essa escolha todos os dias. É me corrigir toda vez que penso em mulheres negras e o movimento negro como se eu fosse alheia a eles. É um esforço ter que me relembrar que faço parte desse grupo. Eu não cresci pensando assim, eu não fui socializada como negra. Eu tive que ser questionada por um homem branco para eu perceber que eu sou uma e isso é bem… perturbador. Inquietante, eu acho.

Enfim, isso já tem dois anos e gosto de pensar que fiz muitos progressos em relação a minha identidade racial, mas eu ainda tenho muita coisa para aprender. Esse é meu conflito. É diário, é algo que eu escolhi e é bem difícil às vezes – especialmente por eu estar numa posição que eu sou facilmente descartada por “não ser negra o suficiente”.

Minha vida, na verdade, é estar nesse lugar de ‘não o suficiente’. Sou negra de pele clara e cabelo liso, então não sou negra o suficiente para ter voz. Sou bissexual, então não sou hétero para ter lugar na sociedade, contudo eu não sou gay o suficiente para ser completamente aceita pela comunidade LGBT. Eu sou demissexual com libido baixa, então não gosto nem aprecio sexo o suficiente para ter uma relação amorosa que seja satisfatória para todos os envolvidos. Confesso estar supercansada desse ‘não o suficiente’, mas o que eu posso fazer? Continuo vivendo neste ‘lugar nenhum’ e tento fazer meu melhor para ajudar as minorias que faço parte – mesmo sabendo que muita gente desses movimentos me descartaria na primeira oportunidade. Mas cada pessoa tem sua cruz para carregar, né? Essa é a minha. Faço o que posso.

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