Rio de Janeiro

Diálogos

Todo artista nasce cancelado

Era mais ou menos dez e pouca da manhã quando meu pai me levou ao Edifício Gustavo Capanema, no Centro, para que eu registrasse um romance que eu tinha escrito. Ventava muito e algumas pessoas passavam pelo pilotis do prédio com pastas esmagadas debaixo do braço. O escritório de direitos autorais ficava em um dos andares mais altos.


No andar, o elevador já abria de frente para o balcão onde se entregavam os originais. Só tinha uma atendente trabalhando. Meu pai ficou esperando perto da porta e deixou eu ir sozinho. Cheio de vergonha, fui. Voltei para casa dizendo que era “autor”. Acho que me chamar de “autor” me ajudava a dar uma ideia de que o que eu fiz era um trabalho como outro qualquer. Como se em “autor” eu lesse “padeiro”. Escritor, não. Escritor era algo muito mais amplo. Escritor era quem já tinha feito uma lista de coisas muito específicas. Isso me levou aos poucos à desistência.


Todo o meu processo criativo sempre esteve atrelado a alguns pontos de metalinguagem. Traduzindo: quase sempre o que eu produzo contém traços sobre como esse processo acontece. O CATTÁRTESE faz parte de uma retomada que dei início nos últimos dois meses em relação à minha produção artística. Esse assunto não cabia no editorial publicado semana passada, mas não poderia deixar de ser assunto nesta primeira coluna.


É muito difícil olhar para si mesmo e se considerar artista. Inclusive é um questionamento que tenho trazido constantemente nas narrativas que coloco para fora - nas que coloco para dentro também. Acho que a gente é levado a acreditar em um consenso geral e absurdo de que existem dois tipos de artista: o fracassado e o bem sucedido. A gente tende a classificar artista como se classifica empresário. Por mais absurda que pareça a comparação, às vezes acho que nem existe uma outra ótica no mainstream de “ideias sobre arte” para a maioria das pessoas. A gente meio que já nasce sabendo que artista é só quem é conhecido. E, quando a gente coloca o “re” antes desse “conhecido”, quer dizer que o artista é medíocre. Até porque, artista (re)conhecido que não é conhecido não adianta de nada.


Quase sempre quem é artista vive em um limiar complicado. Muitas vezes a gente desiste antes mesmo de começar alguma coisa por um milhão de razões totalmente externas ao que, de fato, queremos fazer. Isso tem um pouco a ver com a história do “fracassado” e “bem sucedido”. Todo projeto artístico sempre nasce tosco e fracassado. Sempre. Eu demorei a entender isso. Todo mundo sempre vai achar ridículo o que você está fazendo, o que não quer dizer que achem ruim. E assim chegamos a um outro ponto importante: o famoso “dar a cara a tapa”.


Há quem diga que hoje em dia “dar a cara tapa” está mais fácil. Isso não elimina o fato de que, algumas vezes, o processo é doloroso. Muitas vezes eu ouvi de todas as pessoas erradas que eu tinha que fazer alguma coisa com o que eu produzia. Mandar para fulano, se inscrever em tal coisa, fazer tal curso… Nunca fiz. E acho que fiz bem. Eu não me entendia. E muitas pessoas mandam, se inscrevem, fazem e fracassam. Fracassam porque não se entendem ainda. Eu não me entendia. Hoje acho que me entendo um pouco.


E a academia… Ah, ela merece um pedaço desse texto. O meio acadêmico me deu a certeza de que todo mundo é muito receptivo com produções artísticas - até certo ponto. E isso me fez ver que eu nunca ia conseguir fazer nada sozinho. Que antes de mais nada eu precisaria de um ambiente seguro, com pessoas interessadas nas mesmas coisas e dispostas a surtarem. Sim, surtarem. Por mais brega e clichê que isso possa parecer. Eu precisava de um espaço com pessoas que não teriam a menor vergonha de escrever, de ler, de interpretar, de criar. O CATTÁRTESE nasceu um pouco disso.


O passo mais importante - além de terapia e de se entender - é, se assumir. Você faz cordel? Assuma. Você desenha? Assuma. Você, sei lá, faz escultura de papel machê? Assuma. Todo mundo vai te achar ridículo e te cancelar. Vai vir aquela fatídica frase: “Coitado, pensa que é artista”. Não se preocupe. Todo artista nasce cancelado. Agora, se você, antes de todo mundo, se cancelar… Aí não tem jeito. Não dá para cancelar o que você não deixou existir.


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