Diálogos

Você queria produção de terror nacional?

Atualizado: Mai 7

Será que valeria a pena perder três horas de uma arte impecável para favorecer a dinamicidade do roteiro?


Ah... a má vontade do brasileiro com as produções nacionais...


Cássia Kiss é "Haia" em "Desalma"
Cássia Kiss é "Haia" em "Desalma" / Foto: Divulgação TV Globo

Curiosamente, “Desalma”, produção original Globoplay, é uma série que acompanhei desde a pré-produção. No caso, me dedicava a ler os releases, notas sobre a produção, tudo o que saía. Tudo isso me leva a crer que, se a série fosse, de fato, essa coisa cheia de problemas que muitos estão dizendo que é, eu estaria agora plenamente frustrado. Não estou.



A primeira coisa que precisa ser dita, antes de entrar nas especificidades e erros da produção, é que esse gênero não é visto com bons olhos pelos brasileiros – quando feito por brasileiros. Séries, filmes e demais produções de terror ou aquilo que muitos estão chamando agora de pós-terror, raramente deslancharam em solo tupiniquim. Por isso acho importante destacar que muitos que assistem a série – e comentam logo em seguida – têm cometido o erro crasso de compará-la com produções internacionais.


Parte do elenco jovem de "Desalma" / Foto: Divulgação TV Globo
Parte do elenco jovem de "Desalma" / Foto: Divulgação TV Globo

Semelhanças com Dark? Temos sim. Até porque um dos consultores de design de som da série foi Alexander Wurz, responsável pela sonoplastia da série alemã. Para além disso, Desalma é uma série que, apesar de usar a tradição da Ucrânia como referência para o roteiro, traz muito do Brasil na relação entre os personagens, quase sempre demarcada pelas tensões familiares. Acho que essa parte melodramática característica das produções nacionais parece ter sido esquecida por alguns críticos da série que têm chamado a produção de “uma tentativa ruim de se aproximar de produções internacionais”.


Falando da série, existe sim um didatismo nos três primeiros episódios que muitas vezes confunde quem está assistindo e faz com que você demore a se envolver com a história. Propositalmente muitas informações foram picotadas para, aparentemente, fazer com que a série tivesse mais episódios ou então, medo de que não entendessem uma trama essencialmente complexa que envolve “transmigração de almas”. .

A verdade é que com o ritmo comum a outras séries do gênero, não estamos acostumados a esperar três episódios de história mastigada. Inclusive, concordo que os três primeiros episódios da série poderiam ser resumidos em dez minutos, mas será que valeria a pena perder três horas de uma arte impecável, sonoplastia absurda e um esforço tremendo da direção em não chocar o telespectador, acostumado a ver Cláudia Abreu e Cássia Kiss brigando por um bebê em uma novela das seis em favor disso? Aliás, teve gente esperando ver um embate entre as duas, à lá “Barriga de Aluguel”... Você sabem que eu sou o primeiro a defender novela na redação do Cattártese, mas dessa vez é preciso dizer: Acordem, Alices!

Cláudia Abreu é "Ignes" em "Desalma" / Foto Divulgação TV Globo

Vale destacar que na minha crítica ao didatismo existe também a crítica ao uso de alguns clichês como: referências à filmes de terror e recursos de cena já muito utilizados. Pique-esconde macabro, mão no espelho embaçado... Engraçado que em série americana isso é homenagem, em série brasileira é imitação... Vai entender!

O elenco jovem é outra coisa que tem sofrido críticas tremendas – concordo com muitas delas, desde que justificadas. O entrosamento entre as atuações dos jovens da primeira fase não demonstra naturalidade, o que pode ter sido também uma consequência da combinação roteiro e direção em relação a essa parte do enredo. Até porque os jovens ali são praticamente coadjuvantes até o final da série, conduzida quase que inteiramente por Ignes (Cláudia Abreu) e seu filho Anatoli (João Pedro Azevedo). Também não consigo entender como esse erro possa ser tão pecaminoso em “Desalma”, se quando o mesmo ocorre em séries americanas enlatadas e vazias de criticidade as críticas não são assim tão duras...

Assim como muitas séries brasileiras tiveram que andar para que, hoje, “Bom dia Verônica” pudesse correr, daqui a dois ou três anos, vai aparecer aí alguma produção para alguém sair gritando: Inventaram o terror/suspense nacional em séries brasileiras! E eu estarei aqui, assistindo a terceira temporada de “Desalma” e criticando apenas aquilo que precisa ser criticado. Até porque a segunda temporada já foi confirmada...

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