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Resenha: The Priory Of The Orange Tree

Atualizado: 16 de Ago de 2020

Por: Raquel Couto Mota

15/08/2020


Desde que me entendo por gente, eu sou apaixonada por livros de fantasia. Adoro ler sobre heróis e vilões, civilizações perdidas, magia e criaturas fantásticas. Infelizmente já tem um tempo que eu não consigo me empolgar com um livro novo. Como mulher latina bissexual e parte do espectro assexual, me dói ler livros que ignoram e maltratam pessoas como eu, por mais bem escritos que sejam.

Os heróis mais comuns e conhecidos são, em sua maioria, masculinos, brancos e héteros. As personagens femininas são interesses românticos e muitas vezes acabam humilhadas, abusadas e mortas para causar dor no herói, o efeito chamado mulheres na geladeira [1]. Isso quando elas não são escritas como “personagens femininas fortes [2],” mulheres fatales, poderosas e sedutoras, que sempre têm uma oneliner pronta para chocar e saltos altos que não as impedem de chutar bundas. O que elas não possuem é personalidade e/ou motivação que sejam críveis. Esse tipo de personagem, supostamente criada para agradar o público feminino, acaba agradando apenas (como sempre) ao masculino.

Como mulher, o que eu espero de uma personagem feminina? O que eu quero dela? Eu quero personagens femininas que sejam fortes porque mulheres são fortes. Mas o que significa ser forte? Força significa algo diferente para mulheres diferentes e é isso o que quero ver ser mais explorado na literatura: diversidade. E o livro de fantasia “The Priory of the Orange Tree” da Samantha Shannon nos dá exatamente isso.

Nesse livro, temos tudo o que um fã de fantasia épica pode querer. Temos tipos diferentes de dragões e guerreiros que os cavalgam, diferentes formas de magia e alquimia, espadas mágicas e outros artefatos lendários. Temos piratas, manipulações políticas, profecias e mistérios. Temos romances proibidos, lutas épicas, assassinatos e intrigas, como também temos personagens femininas, principais e secundárias, que são reais e complexas, com motivações, personalidades, e sexualidades diferentes. Elas são personagens que encontram força nas suas vulnerabilidades e empoderam umas às outras.

O mundo criado por Shannon é muito rico; temos povos diversificados, etnias com culturas, religiões, e políticas bem distintas. Seus personagens, cada um em uma parte do mundo, precisarão aprender a lidar com essas diferenças e se unir para enfrentar The Nameless One (Aquele Que Não Possui Nome), uma criatura dracônica milenar e maligna que está prestes a retornar e queimar tudo e todos em seu caminho.

Temos quatro pontos de vistas:

- Ead Duryan, uma feiticeira da ordem secreta do “Priorado da Laranjeira” (Priory of the Orange Tree), está infiltrada na corte de Inys para proteger a Rainha Sabran Berethnet. Inys é descrito como um queendon (o oposto de kingdom) já que governantes são unicamente mulheres, e o poder é passado de mãe pra filha. Esse costume se mantém, pois toda rainha que engravida tem uma filha que possui exatamente suas mesmas características. Assim, a estabilidade e a sobrevivência do reino dependem sempre da geração de uma herdeira que, de acordo com a religião da Virtude (Virtudom), enquanto houver uma Berethnet no trono, The Nameless One não despertará, colocando a humanidade em risco. Para proteger Sabran, Ead precisa se converter publicamente a Virtudom, esconder a sua magia, suas crenças, e se adaptar a futilidade da corte. À medida que ela se aproxima da Rainha, Ead revela conspirações, impede assassinatos e descobre um lado de Sabran que a faz questionar o que é certo e o que é errado.

- Miduchi Tané, do outro lado do abismo, é uma jovem órfã que passou sua vida toda treinando para ser uma Dragon Rider. Na véspera da cerimônia em que todos os seus sonhos se realizariam, uma presença inesperada ameaça arruinar tudo. A jornada de Tané é trágica e desafiadora, mas, junto com seu dragão, Tané luta para encontrar seu propósito e seu lugar no mundo. O laço de Tané com seu dragão Nayimathun é uma das coisas mais bonitas do livro.

- Arteloth Beck, conhecido como Loth, é um nobre de Inys que é exilado pelo mestre espião da Rainha sem ela saber. O dever mais importante de Sabran como rainha é se casar e gerar uma filha e Loth foi considerado um empecilho devido a rumores que surgiram na corte sobre sua amizade com a rainha. Seu único crime, entretanto, foi ser um amigo leal a Sabran. Loth é mandado para Yscalin, um reino que outrora pertenceu a Virtude, mas que agora adora os dragões malignos, serventes do Nameless One.

- Niclays Roos é um alquimista que despertou a ira de Sabran ao prometer que conseguiria produzir o elixir da vida eterna para ela. Seu fracasso o levou ao exílio no leste, onde ele passa seus dias bebendo e alimentando seu rancor pela Rainha. Amargurado, cansado e um autoproclamado covarde, ele não quer saber de aventuras ou de profecias lendárias, mas o destino tem planos diferentes para ele. À medida que ele luta para sobreviver, ele descobre uma chance de completar o trabalho de seu antigo, trágico amor e de ser capaz de finalmente seguir em frente, fechando esse capítulo da sua vida.

A minha personagem favorita, entretanto, não possui um ponto de vista. Sabran Berethnet perdeu a mãe cedo e foi criada desde sempre para ser uma Rainha perfeita. Apesar de acreditar piamente nos ensinamentos da Virtudom e fazer o seu melhor para cumprir o seu dever como Rainha, ela se sente presa e ressente que o futuro de Inys depende da sua habilidade de engravidar [3]. Assim, ela recusa pretendentes e reina sozinha o máximo que pode. Várias passagens dos capítulos de Ead mencionam que ela sofre de depressão [4] e se odeia por suas limitações, mas mesmo assim ela persevera. Sua força não é tão óbvia quanto a de Ead ou a de Tané, que são guerreiras. Sua força é sutil, mas seu poder é tão grande quanto o de outros personagens.

Shannon trata seus personagens com cuidado e amor, pois, apesar de todos os erros que eles cometem, ela os dá uma chance de aprender, mudar, e crescer como pessoas, expandindo seus horizontes ̶ o que é algo extremamente gratificante de se ler. Além disso, as lutas e reviravoltas são de tirar o fôlego, o desenvolvimento lento do romance constrói tensão e explode no momento certo. O livro é longo, mas não me entediou em nenhum momento, pois possui um bom ritmo. Apesar da história do livro estar fechada, existem ganchos para uma continuação, algo que a autora demonstrou interesse em escrever. Recomendo a leitura para quem busca um livro de fantasia com personagens realistas e complexos e um desfecho extremamente satisfatório.

[1] https://lby3.com/wir/

[2] https://medium.com/@rachelwayne/fierce-femmes-the-problem-with-strong-female-characters-6c4e23847b8f

[3] “A woman is more than a womb to be seeded.” Uma mulher é mais que um útero a ser fertilizado, é uma quote direta do livro.

[4] “Berethnet sovereigns were prone to what the Inysh called grievoushead-periods of sadness, with or without a discernible root.” Os soberanos de Berethnet eram propensos ao que os residentes de Inys chamavam de períodos de tristeza, com ou sem uma raiz discernível


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