Diálogos

Resenha: Shades of A - Tab A. Kimpton

“Shades of A" começou como uma paródia de "Cinquentas Tons de Cinza", mas, por mais que as comparações sejam hilárias, essa webcomic é muito, muito mais do que isso. Tab A. Kimpton conta a história de Anwar Sardar, um homem muçulmano [1] e assexual que é arrastado para um clube de fetiche por ume amige. Mesmo desconfortável, ele acaba conhecendo e fazendo amizade com um travesti submisso chamado Chris/Vixen. Depois dessa noite, ele e Chris se encontram por acaso, acabam se envolvendo romanticamente e a história foca em como eles navegam esse relacionamento, que é algo extremamente novo para ambos.


No início eles enfrentam diversos problemas, internos e externos. Anwar, por exemplo, mesmo tendo certeza de sua assexualidade e achando sexo nojento, tenta se forçar a fazer sexo para satisfazer seus parceiros. Mesmo sem Chris cobrar sexo dele, Anwar tenta seduzí-lo diversas vezes por causa de sua crença internalizada de que tem algo errado com ele, inconscientemente tentando se "consertar" e agir como uma pessoa "normal." Como uma pessoa assexual que já perdeu um relacionamento por causa da minha assexualidade, eu me vi no Anwar, eu me conectei e sofri com ele durante todo o percurso.


Tem muitas coisas que eu amo nessa história e na sua continuação "Shades After" e, se me deixassem, eu falaria delas para sempre, mas vou tentar me controlar e apresentar uma resenha concisa e coerente. Primeiro, em termos de diversidade, preciso dizer que essa webcomic me emocionou bastante por representar e explorar bem a diferença entre amor platônico, amor romântico e amor sexual.


Em segundo lugar vem a representatividade. Por vivermos em uma sociedade altamente sexualizada, assexualidade [2] é bastante incompreendida [3] e pessoas assexuais sofrem muito preconceito [4], desumanização [5,6], e estupros corretivos [7,8], apesar de muita gente (até membros da comunidade LGBTQ [9]) negar que exista discriminação [10]. Devido a tudo isso, muitos assexuais se sentem como se fossem aberrações e acabam se isolando completamente. Essa webcomic nos dá representatividade, ela nos dá a chance de nos vermos num personagem e percebermos que não estamos sozinhos. Ela também nos dá esperança de encontrar um parceiro que nos ame e respeite, como o Chris, que, apesar de allosexual, sempre recusa os avanços do Anwar, tranquilizando-o de que eles não precisam fazer sexo para serem um casal "de verdade." O máximo que eles fazem é o Anwar abraçar o Chris enquanto ele se masturba e é incrível ver como eles conversam sobre isso antes e depois do ato, sempre querendo se certificar que o outro está se sentindo confortável e seguro.


Comunicação é um dos pontos principais dessa história e o pilar mais importante do relacionamento deles uma vez que Chris continua a explorar seus fetiches fora da relação, com o consentimento de Anwar. Como um casal, eles são adoráveis, flertando, brincando um com o outro, e mantém um relacionamento extremamente saudável, mas nem tudo são flores; eles passam por altos e baixos, eles brigam e brigam feio porque brigar faz parte. Mas, no final, eles sempre conversam e se entendem.


Outro ponto que me tocou muito, e é bem explorado na continuação, foi o relacionamento de Anwar com a mãe. Eles sempre foram muito próximos e se aproximaram mais ainda depois da morte do pai de Anwar. Mas ao mesmo tempo, sua mãe não aprova de seu relacionamento com Chris por ele ser um homem mais velho e não acredita que o relacionamento seja sem sexo porque "todo homem só quer saber de uma coisa." Ela usa essa frase com seu filho, um homem que definitivamente não quer saber dessa coisa, demonstrando acefobia. Eventualmente, ao perceber o quanto Chris faz Anwar feliz, ela muda de opinião e passa a apoiar o relacionamento.


E, apesar de Anwar ser o principal da história, os outros personagens não são negligenciados e/ou esquecidos. Chris está longe de ser unicamente o “interesse romântico,” ele é um personagem interessante e real, com uma família, um passado, traumas, desejos e inseguranças. Além disso, com ele, conhecemos mais sobre a comunidade BDSM, e sobre sua dominante, sempre ressaltando a importância de conhecer e respeitar seus limites. Sinto que o autor fez um bom trabalho apresentando essa comunidade para os leitores e os educando sobre consentimento e fetiches de uma maneira leve e divertida.


Outre personagem essencial para a história é J.D., melhor amige de Anwar que o arrastou para a festa de fetiche em primeiro lugar. Anwar e J.D. tem história juntos, eles são ex-namorades que, apesar do término doloroso, continuam amiges porque eles se amam muito. Anwar ainda nutre sentimentos românticos por J.D. no início da história, além de muita culpa por não ter conseguido lidar bem com sua sexualidade na época, mas ele respeita a decisão de J.D. de não voltar com ele e genuinamente se esforça para superá-le, e apoia-le. De novo, temos muitos altos e baixos nessa relação, eles inconscientemente se machucam, mas tudo é superado com diálogo e com o amor que eles sentem um pelo outro. O relacionamento deles me dói muito por ser tão real e bonito. Na minha opinião eles provam que amor platônico pode ser tão ou mais forte que amor romântico e/ou sexual.


Em resumo, eu recomendo as webcomics "Shades of A" e "Shades After", disponíveis de graça no site do autor [11] com muito orgulho e amor. Elas não só entregam um romance adorável e representatividade, mas a mensagem final é de esperança e superação, algo que desesperadamente falta na literatura LGBTQ+ , onde a trope bury your gays [12] geralmente predomina [13].

[1]https://www.mpvusa.org/lgbtqi-resources


[2]https://ecommons.luc.edu/cgi/viewcontent.cgi?referer=https://www.google.com/&httpsredir=1&article=1519&context=luc_diss


[3]https://news.sky.com/story/asexuality-explained-sky-data-poll-shows-widespread-lack-of-understanding-11626697


[4] https://www.psychologytoday.com/gb/blog/without-prejudice/201209/prejudice-against-group-x-asexuals

https://www.salon.com/2015/08/25/dr_ruth_is_wrong_about_asexuals_its_a_legitimate_sexual_orientation_not_a_problem_to_be_solved/


[5] https://web.archive.org/web/20190601154746/http://asexualawarenessweek.com/docs/AsexualityBias.pdf


[6] https://www.buzzfeednews.com/article/jmkliegman/asexuality-sexual-assault-harassment-me-too


[7] https://www.huffingtonpost.co.uk/entry/asexual-discrimination_n_3380551


[8] https://www.pride.com/pride/2018/6/01/asexuals-shouldnt-be-excluded-queer-spaces-especially-pride


[9] https://www.huffingtonpost.co.uk/entry/lgbt-asexual_n_3385530?guccounter=1&guce_referrer=aHR0cHM6Ly9lbi53aWtpcGVkaWEub3JnLw&guce_referrer_sig=AQAAAKXY1OWuNFCcOC_xVBp1fCHCoXLETJGZch5hKQ25tBv8DyygzhV8OMDheJ9LguBL6gOHUHnSjtBtePO3why4TJj_GH9Bn7dEXKwppc_e2tlXhZc7sknnXXIboJR0Ns0MU5EJPVaybt0KH6oS2OA2KwiMftAXX64MLXMpboZ6q7bm


[10] http://www.discordcomics.com/comic/shades-cover/


[11] https://scholarworks.gvsu.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1579&context=mcnair


[12] https://www.goodreads.com/shelf/show/bury-your-gays


14 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo