Diálogos

Resenha: Olhos D'Água

Por: Aline Germano

26/07/2020


A escritora mineira Conceição Evaristo é formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, titulou-se Mestre em Literatura Comparada pela PUC-Rio e Doutora também em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente, a adoção de seus textos literários como complementação de bibliografias e como objetos de estudos acadêmicos confirmam que se trata de uma das escritoras brasileiras mais lidas e estudadas no que se refere à reflexão sobre mulheres e sobre a comunidade negra.

Sendo assim, é bom falar que para captar essa nova compreensão de mundo proposta por Conceição Evaristo é preciso considerar sua trajetória mesmo antes da escrita, como mulher negra, oriunda da periferia e vivendo na sociedade brasileira. Evaristo é uma escritora contemporânea, proveniente de uma favela de Belo Horizonte, em Minas Gerais, na qual viveu até 1971. Publicou pela primeira vez em 1990, nos Cadernos Negros, e desde então tem ocupado cada vez mais espaços no cenário e na crítica literária brasileira.

Desse modo, notamos uma aproximação entre autora e narradora, bem como as personagens, os espaços e as experiências descobertas nas páginas de seus livros. A possibilidade dessa relação reforça a intenção de ressignificação da história dessas mulheres por meio da escrita feminina negra. Assim, conhecer a história de Evaristo implica aprofundar-se nas demais histórias narradas por ela.

Depois dessa breve apresentação, preciso contar sobre como conheci Conceição Evaristo. Meu primeiro contato com ela foi quando estava na graduação e decidi fazer uma atividade de extensão oferecida pela Faculdade de Letras com um nome ambicioso: “Crítica Literária Feminista”. Com esse nome, que tinha tudo que me interessava, fui atraída com grandes expectativas para o curso. Na primeira aula, a professora explicou que trabalharíamos com Olhos D’água, da Conceição; aquela foi a primeira vez que ouvi o nome da escritora que mudou os rumos da minha vida acadêmica. Foi ali que, como diria a pensadora contemporânea, “veio à tona, fui à lona, foi k.o”.

Depois dos primeiros contatos, percebi que havia algo na escrita de Conceição Evaristo que eu queria perto de mim, que exigia cuidado e paciência para ser muito bem estudado. Mudei tema de pesquisa e até da monografia para poder me dedicar a essa literatura que não se parecia com a maioria das coisas que eu tinha estudado. Olhos D’água é um livro capaz de mostrar para nós uma relação forte entre ancestralidade e identidade. Esses são temas recorrentes na prosa de Conceição Evaristo, bem como a tentativa de construir essa herança histórica por meio de uma narrativa poética, com um poderoso valor estético e de cunho social. Em Olhos D’água, os contos se revelam como um turbilhão de questões sociais e existenciais que explodem a cada página, levando o seu leitor a uma reflexão sobre a própria condição de ser no mundo moderno. Como em toda a sua obra ficcional, Conceição Evaristo define o seu foco, trazendo à tona a violência e a pobreza que acometem seus personagens.

Sem recorrer a elementos facilitadores, a autora explora a fundo a vida costurada “com fios de ferro”, como a própria define em seu conto “A gente combinamos de não morrer”. Vida essa que é criada e recriada tantas vezes e que parece ser captada como que por um caleidoscópio literário, no qual se constroem e se fragmentam indivíduos diversos, que coexistem em uma sociedade de exclusões, de exceções, e que, apesar de tudo, conservam em si força e vitalidade.

Em Olhos D’água, conseguimos perceber a evocação dos vínculos familiares, dos conflitos sociais e da violência que atravessa as histórias de vulnerabilidade e fragilidade, como a da menina Zaíta, personagem-título do conto “Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos”. Uma das coisas mais pertinentes no livro é que não há idealizações ou paternalismos, Conceição Evaristo recria com firmeza as difíceis condições de vida enfrentadas por grande parte da população brasileira.

Olhos D’água narra 15 histórias e se constrói como uma galeria de personagens femininas em idades e contextos de vida variados, mas que partilham a mesma “corrida sobre a corda bamba, invisível e opressora do tempo”, que aparece no conto “O cooper de Cida”. Em seu curso, o livro apresenta ainda um mundo de homens e meninos, que por vezes são protagonistas, cujas vozes assumem o comando da narrativa. À parte disso, constatam-se narrações e histórias majoritariamente protagonizadas por mulheres, o que já representa uma subversão da ordem estabelecida. Uma fragmentação que desloca, desordena e reordena os elementos do cotidiano – os habitantes de periferias, favelas, prostíbulos e até mesmo as ruas; aqueles que por vezes não se notam – para produzir novas imagens, novas expressões do mundo, que são mais genuínas.

Recomendo a leitura não só de Olhos D’água, mas de toda a obra de Conceição Evaristo, pois sua escrita é simples e sofisticada ao mesmo tempo. É sempre um olhar voltado para a transformação, categoria da qual a autora participa. É possível considerar a prosa evaristiana como representativa, pois mais do que tocar em questões que tratam de determinado grupo social, a autora se faz também intérprete de sua narrativa, incorporando às experiências narradas às suas próprias. Esse reconhecimento na figura do “outro” é o que ampara a literatura de Conceição. Sua “escrevivência” tem como suporte a narrativa baseada nas experiências individuais e coletivas, não somente pela temática racial, mas também por suas escolhas estéticas. Acho que é por isso que Olhos D’água é um livro tão impressionante, Conceição consegue misturar realidade e beleza de um jeito único. É muito tocante a forma como as narrativas são conduzidas e ainda mais como terminam. Não há como não sermos afetados por tanta imponência e sensibilidade. É uma leitura diante da qual não ficamos indiferentes. E, mais do que nunca, precisamos de leituras assim.

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