Rio de Janeiro

Diálogos

Resenha: O Que O Sol Faz Com As Flores - Rupi Kaur

Por: Aline Germano

06/09/2020


num sonho

vi minha mãe

com o amor de sua vida

e sem filhos

nunca a vi tão feliz

- e se


Somos marcados pela luta pela sobrevivência, mas agora, a partir dessa enorme urgência provocada pela pandemia, o cuidado uns com os outros se torna a chave para manter algum resquício de vida, tanto coletiva quanto individual. Para defender a vida é preciso expor as forças econômicas e políticas que a atacam incessantemente. No Brasil, é necessário denunciar a política da morte que se instalou, não apenas na presidência, mas nos mais sutis espaços, inclusive, nas pessoas. Precisamos ser frágeis para defender a vida.


Por isso, quero propor que olhemos com atenção para os poemas do livro O que o sol faz com as flores, de Rupi Kaur, poeta indiana, que se você não conhece, deveria. A obra de Rupi Kaur, diferente do que alguns dizem, é densa. Vou aproveitar minha própria deixa para dizer que não entendo os comentários que diminuem sua poesia, reduzindo-a a “simples”. Não consigo ver críticas dessa natureza se não como puristas e reducionistas; a vontade que tenho é de perguntar: “Mas você leu?”. Vai achando que tudo que mulher escreve é menor, é desimportante, é “bonitinho”. Enquanto esse tipo de pensamento existir, perde quem se nega a ler mulheres, pois escrevemos desde resenhas de livros até os mais vendidos do The New York Times, como é o caso de Rupi Kaur. E é claro que isso não significa considerar a obra de Kaur a melhor já feita ou mesmo gostar de seu trabalho, mas sim negar esse olhar limitado de que mulheres não produzem boa literatura.


Nascida em Panjabe, na Índia, em 1992, Rupi Kaur é poeta e ilustradora. Mudou-se para o

Canadá com a família ainda na infância e lá cursou Estudos de Retórica na University of Waterloo. Depois de formada, publicou seu primeiro livro, Outros jeitos de usar a boca, em 2015, que se tornou um sucesso de público e atingiu 2,5 milhões de cópias vendidas no mundo todo. Em sua primeira semana, seu segundo livro, O que o sol faz com as flores, publicado em 2017, já era sucesso também.


Em O que o sol faz com as flores, Kaur aborda temas complexos relacionados às vivências de mulheres. Estruturando o livro em cinco partes: murchar, cair, enraizar, crescer e florescer, a poeta nos dá a chave para entender o funcionamento de sua produção, um mapa a partir do qual destrincha questões muito sensíveis, como relacionamentos abusivos, depressão, imigração e ancestralidade. Apesar de não situar a obra em um momento específico no tempo, os poemas compõem uma estrutura e por isso não se perdem, se atualizam. Os mais narrativos têm aspectos em comum, seja a linguagem, sejam os temas ancorados em experiências individuais e coletivas da poeta. É por esses fiozinhos que Rupi vai costurando as partes dessa coletânea.

Há muito a ser dito sobre o livro, e muito já foi dito, mas quero me concentrar em um aspecto específico dele. Nos últimos tempos tenho pensado muito em uma palavra que acredito vir ao encontro e traduzir em uma tacada do que trata Rupi Kaur em sua obra: “vulnerabilidade”. Essa palavrinha possui 3 entradas no dicionário Michaelis:


vul·ne·ra·bi·li·da·de

sf

1 Qualidade ou estado do que é vulnerável.

2 Suscetibilidade de ser ferido ou atingido por uma doença; fragilidade.

3 Característica de algo que é sujeito a críticas por apresentar falhas ou incoerências; fragilidade.


ETIMOLOGIA der do lat vulnerabĭlis+dade, como fr vulnérabilité.”.

Talvez tenha colocado o seu significado numa tentativa desesperada por buscar formas de me amparar e de não me sentir tão fora de controle diante da tal vulnerabilidade. A verdade é que quando lidamos com nossa fragilidade, entramos num oceano, num mundo desconhecido. Dá medo. E esse parece ser o melhor motivo para escrever sobre isso, pois não desejo escrever sobre coisas que não me assombrem ou que não me desordenem de alguma forma.

É como se um universo todo nos virasse de cabeça para baixo e nos invadisse através dos minúsculos poros dessa vida segura na qual nos encastelamos. A vulnerabilidade é esse oceano que tenta vazar a todo custo para dentro dos ambientes controlados que pensamos construir e nos quais nos sentimos no controle, limpinhos e racionais. Nesses lugares nos quais sentimos que sabemos de tudo.

Aí que tá, não sabemos.

Há mais de um poema em O que o sol faz com as flores que relaciona a mulher com a natureza, em que a coloca numa situação de contato com esse outro universo não explorado. Não sei dizer com certeza o objetivo disso, mas concordo que as mulheres e a natureza têm muito em comum quando se trata de resposta às tentativas de domesticá-las.




Todo o livro nos leva a confrontar esse lugar inseguro e instável que temos e que Rupi compara às montanhas, às chuvas torrenciais e ao sol estorricante que invadem os poemas. Aceitar a vulnerabilidade nos deixa expostos, pois encaramos a perda, a fissura, e isso nunca vai ser fácil. O outro lado disso, acaba revelando que enfrentar esses pequenos segredos, aqui e ali, quando aparecem, nos torna mais humanos. Se o que é selvagem se estende para fora, também se estende para dentro (de nós). Somos vulneráveis. E precisamos aprender a resistir nas nossas fragilidades; mesmo que essa imensidão que nos invade amedronte num primeiro momento, nós somos essa imensidão e não podemos negá-la, correndo o risco de perder ou sufocar aquilo que mais nos humaniza.

E a literatura, arrisco, é essa tentativa de compreender a imensidão.


O livro de Rupi nos faz ver esse espaço de desconforto, esse tapete para o qual jogamos debaixo tudo que nos desconcerta e nos é desagradável. Mostra que nunca somos uma única coisa, planos, retos, lisos. Nem as fortalezas que nos imaginamos, que resolvem tudo sem ajuda, sós. O sol que penetra as flores, podendo causar ferimentos, é o mesmo sol que faz com que as mesmas flores se ergam. As mesmas flores. O mesmo sol. Nós também, como a natureza, temos muitas camadas protetoras sobrepostas, que, em algum momento, podem se tornar densas demais ao ponto de não conseguirmos mais ver o que está ali na frente. Há tantos galhos embaraçados que a luz não pode entrar.

Lendo O que o sol faz com a flores pensei mais essas questões que ainda estão aqui relativas ao que existe de selvagem e arisco em mim e é engraçado pensar que o que tenho de mais selvagem é justamente o que me expõe, o que mostra a minha fragilidade. A coletânea de poemas pode servir como um mapa que nos conduz por muitos caminhos. Quando reconhecemos e assumimos nossas vulnerabilidades, permitimos que a luz entre. Não há refúgio que nos projeta. A imensidão da vulnerabilidade causa medo, mas a vida – e a literatura -, às vezes, não dão outra escolha a não ser mergulhar nela.

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