Diálogos

Resenha: "O Conto da Aia"

Por: Aline Germano

Data: 17/07/2020



Autora Margaret Atwood
Autora Margaret Atwood

Ainda na onda das distopias, a leitura da vez é “O conto da aia”, clássico do gênero, escrito pela canadense Margaret Atwood, em 1985. A autora já possui muitos livros publicados, mas esse é, sem dúvida, o mais conhecido devido ao sucesso da série estadunidense baseada nele, The Handmaid's Tale, criada por Bruce Miller e produzida pelo serviço de streaming Hulu, em 2016.

Em seu romance, Atwood nos entrega uma sociedade que, após um forte movimento conservador que defendia a santidade do lar, o papel doméstico da mulher e os “valores da família”, sofre um golpe empreendido por militares que matam todos os representantes políticos eleitos democraticamente e assumem o poder, transformando os Estados Unidos em uma república teocrática e militarizada organizada e governada por homens que controlam as capacidades reprodutivas das mulheres (logo mais em um Brasil perto de você!).

Mais do que o que nós conhecemos como controle sobre os corpos femininos, em Gilead, esse “novo mundo” construído sob repressão e morte, as mulheres são anuladas como cidadãs e passam a exercer funções pré-determinadas pelo governo, correndo o risco de serem mortas caso não aceitem seu lugar nessa sociedade dividida em classes. Elas são separadas e categorizadas em três grupos principais: as esposas, as martas e as aias. As esposas, como o nome já sugere, são mulheres oficialmente casadas com os comandantes - homens ricos e poderosos -, mas apenas isso; confinadas em suas luxuosas casas, não possuem outras ocupações ou interesses além da manutenção da vida doméstica. O grupo das martas se aproxima muito do que seriam as empregadas domésticas. No livro, que não revela muitas informações a respeito delas, apenas é dito que são elas que desempenham o trabalho braçal nas casas dos comandantes e de suas esposas. Por fim, apesar de todas as mulheres sofrerem em maiores ou menores níveis sob o regime de Gilead, as aias são a classe mais violentada. Categoria fundamental para o funcionamento da nova nação, essas mulheres se tornam propriedades do Estado, que tem como promessa e objetivo o controle e a recuperação da taxa de natalidade, que sofreu uma severa crise. É nesse contexto que mulheres são arrancadas das vidas que conheceram e são obrigadas a abandonar suas carreiras, suas famílias e até seus nomes para servir exclusivamente como reprodutoras. As aias servem para gerar filhos que serão adotados pela esposa e pelo comandante responsáveis por elas.

A história é narrada em primeira pessoa por Offred, uma aia, cujo nome não é informado, pois em Gilead até os verdadeiros nomes as mulheres perderam, restando apenas uma junção de um pronome possessivo mais o nome de seu comandante, como ocorre com Offred, que significa “Of Fred”, em português: “do Fred”, o que reforça a relação de propriedade e proprietário. Offred, formada, casada e mãe, narra como foi forçada a deixar sua vida para se tornar uma aia. Seu relato é feito a partir do choque ao comparar o passado repleto de possibilidades e liberdade com o presente de repressão.

Na condição de aia, Offred expõe o controle exercido sobre as mulheres em Gilead, que vai desde a proibição da leitura até para onde devem olhar (bem representado por um chapéu que compõe seu uniforme e restringe a visão periférica). Toda a vigilância sobre os corpos femininos é justificada como uma forma de garantir a (pasme!) “segurança da mulher”, supostamente perdida durante a liberação sexual, que teria gerado uma cultura de métodos contraceptivos e uma reação em cadeia de promiscuidade e desordem social prejudiciais ao bem-estar coletivo. Nesse regime totalitarista, apesar de uma aparente amenidade e conforto, as aias são ritualisticamente estupradas por seus comandantes. Eu digo “ritualisticamente” porque são rituais mesmo, com direito à leitura bíblica do Antigo Testamento e tudo.

Consideradas sortudas por serem capazes de engravidar, essas mulheres têm como única função serem “fecundadas” pelos comandantes nesses rituais mensais. Offred, assim como todas as aias, é estuprada por seu comandante, diante da esposa dele, sob o pretexto de engravidar para repovoar Gilead. O que ocorre de verdade é a institucionalização do estupro feita pelo Estado, que deseja perpetuar o machismo e transformar mulheres em objetos retirando seus direitos básicos a partir de uma a justificativa perversa e ilógica.

Offred relata uma rotina maçante de incontáveis idas ao mercado e visitas supervisionadas a outras aias, o que provoca um efeito letárgico na leitura muitas vezes, mas isso é proposital. Atwood explora bem o recurso da primeira pessoa e brinca com as expectativas do leitor, alternando entre longas descrições e um suspense que estimula a narrativa e, consequentemente, o comprometimento de quem lê. Com uma voz cheia flashbacks, Offred fala lentamente como foi parar em Gilead, como era sua vida antes do golpe e como os direitos das mulheres foram atacados pouco a pouco até que fossem totalmente suspensos. O mundo apresentado por ela é terrível porque pode ser real. “O conto da aia” é uma daquelas leituras que por vezes temos vontade de abandonar, seja pelo ritmo arrastado em certos trechos, seja pelo desespero que provoca em nós, mas que somos incapazes de negligenciar, lendo vorazmente para saber o que vai acontecer em seguida. Uma das contradições que só quem viveu sabe.

A partir desse enredo, que evidencia os riscos do fundamentalismo religioso, do machismo e da desinformação, Atwood torna seu livro algo capaz de atingir todos os tipos de leitor, uma vez que mistura realidade e ficção em um cenário impossível, mas que não é tão impossível assim, e que por isso intriga. Acredito que o que mais nos assusta e nos perturba no romance é justamente a capacidade da realidade criada por Margaret Atwood ser realizável fora do seu universo de ficção. Sei que parece exagero da minha parte, mas não é; ou alguém já se esqueceu da ministra Damares Alves mandando retirar de circulação uma caderneta que continha informações sobre prevenção da gravidez na adolescência e doenças sexualmente transmissíveis? Ou da vez em que expressou sua preocupação com a “ausência das mulheres dentro de casa”? Ou ainda da vez em que afirmou que “A mulher nasceu para ser mãe, é o papel mais especial da mulher”? Exemplos não faltam, mas não vou fazer uma retrospectiva dos nossos horrores, nós os conhecemos o bastante para perceber que Gilead é logo ali virando a próxima esquina à direita. As mulheres, que passaram a vida lidando com a violência, estão acostumadas a resistir e percebem a obviedade desses atos.


“Eu gostaria de não ter vergonha. Gostaria de ser sem-vergonha. Gostaria de ser ignorante. Aí eu não saberia o quanto era ignorante.”

Uma das coisas que “O conto da aia” deixa mais evidente é que direitos não são retirados de uma hora para outra sem explicação, isso ocorre aos poucos, de maneira quase imperceptível. Há uma construção social horrível que vai ganhando forma até diminuir e oprimir a mulher completamente. Para a estrutura de Gilead funcionar, as mulheres precisavam ser desvalorizadas, tratadas como incapazes de administrar as próprias escolhas sozinhas, taxadas de promíscuas e até de infelizes por não servirem como procriadoras para a sociedade. Margaret Atwood desenvolve bem como isso ocorreu: primeiro a perda dos direitos sobre o próprio dinheiro, depois a perda dos empregos, avançando para a perda sobre o controle do próprio corpo e culminando na perseguição e morte daquelas que se recusarem a viver assim.


“Vivíamos, como de costume, por ignorar. Ignorar não é a mesma coisa que ignorância, você tem de se esforçar para fazê-lo. Nada muda instantaneamente, numa banheira que se aquece gradualmente, você seria fervida até a morte antes de se dar conta.”

Esse processo só foi possível devido a uma sociedade que aceita e permite a desumanização de mulheres, pois nunca existiria uma república de Gilead se não houvesse tantos apoiadores e defensores de pensamentos retrógrados e misóginos. Em nome de pretensos “valores da família”, muitos sustentam que a privação de direitos das mulheres é o melhor caminho para a retomada de um país conservador e feliz. O imaginário popular foi infestado pelo medo da independência feminina; afinal, se há mulheres livres, instruídas e articuladas quanto a seus direitos, como controlá-las? Não sou do tipo de leitora que busca uma “moral” nos livros que lê, mas essa distopia tem muito a dizer e precisamos estar atentos. Nós não vivemos presas como aias, mas ainda somos controladas, temos nossas escolhas e estilos de vida julgados e condenados por tribunais da moralidade. Apesar de se tratar de uma ficção, “O conto da aia” retrata o que poderia ser a nossa realidade em um futuro próximo, por isso é uma leitura tão perturbadora e urgente.

É sempre difícil encerrar as resenhas, porque acho que nenhum assunto é esgotado mesmo, totalmente. Sempre podemos ir mais fundo nas reflexões, nas análises e nas dúvidas, principalmente sobre literatura, que permite muitas interpretações. E é essa a sensação provocada pelo romance de Margaret Atwood, poucas conclusões e muitos questionamentos, bem do jeito que eu gosto. Recomendo a leitura de “O conto da aia” não apenas por se tratar de um livro capaz de te manter agarrado na história, mas porque ele nos lembra que a visão que pautava a política de Gilead está bem viva e atuante aqui entre nós, só esperando uma oportunidade. Não vai haver um comunicado oficial no horário nobre ou corte de uma faixa anunciando que nossos direitos acabaram, isso é um processo lento e perigoso para o qual precisamos estar bem atentos a fim de lutar contra isso e barrar os avanços de ideologias e discursos que querem nos controlar. É por isso que a leitura de “O conto da aia” é tão necessária. Para compreender como ainda somos ameaçadas e perseguidas e pensarmos em formas de seguir resistindo às opressões. Essa leitura exige de nós muita reflexão, pausas diante da semelhança com a nossa realidade, mas ela também traz conforto quando nos vemos nessa versão tupiniquim de Gilead em que passamos a viver. Por fim, entre as muitas perguntas sem respostas, é um livro que nos devolve um pedido muito claro: "Nolite te bastardes carborundorum".

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