Rio de Janeiro

Diálogos

Resenha: O Alienista

Por: Aline Germano

Data: 23/08/2020

Capa da Edição da Amazon

Durante esse momento de isolamento social, como vocês sabem, tenho aproveitado para botar as leituras em dia. O mais engraçado é que tenho feito as pazes com os clássicos que me mandaram ler na adolescência, mas não aguentei na época. A leitura dessa vez é O Alienista, do Machado de Assis ou Machadão para os íntimos. Motivada por um amigo, com quem sempre começo leituras compartilhadas, (que nunca terminamos juntos, diga-se de passagem) encarei esse clássico da nossa literatura e acabei relembrando o quanto gosto do Machado. O autor, que, confesso, não é dos mais simples para mim, sempre me surpreende e acaba me mostrando o quanto vale a pena me desafiar em suas obras.


O livro é bem curtinho, mas isso não diminui o seu impacto e a profundidade do texto. Simão Bacamarte é um médico formado por uma universidade europeia, que, após um tempo longe do Brasil, decide voltar para o Rio de Janeiro, mais especificamente para Itaguaí, para se dedicar aos estudos a fim de descobrir uma cura para a loucura. Sim, Simão Bacamarte é obcecado pela loucura e vai tentar desvendar o último mistério da perturbação da mente humana. Para isso, o médico se vale de um discurso “científico”, que lhe dá poder sobre os moradores da cidade, e junto aos governantes locais convence os habitantes de Itaguaí de que ele possui a cura para a loucura. É aí que a história começa a se complicar, pois Simão Bacamarte cria a Casa Verde, que é um manicômio no qual pretende deter todos aqueles que julgar loucos.


“A loucura - ele descobre, ao despedir-se de D. Evarista, que viaja ao Rio - objeto de meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente”

No início de suas pesquisas, toda a população de Itaguaí aprova métodos já que ele é de fato um médico e estudioso da mente humana. Para ele não há meio termo, a ciência não permite que ocorram imprecisões ou dúvidas. Só há uma alternativa possível: a exatidão, a delimitação perfeita e científica dos limites da razão humana que a separam da loucura. Para ele, a saúde mental só pode ser entendida como “o perfeito equilíbrio de todas as faculdades” e qualquer um que fuja a essa regra, inventada por ele mesmo, é mentalmente desequilibrado e precisa ser tratado na Casa Verde.


Com o passar do tempo e dos avanços científicos que faz, Simão Bacamarte se torna cada vez mais obcecado pela “cura universal” e passa a enxergar loucura em todos que ajam de forma que ele julgue destoante daquilo que seria tido como “normal”. Por mais trivial que seja o comportamento, se o médico desconfia das atitudes, trancafia a pessoa na Casa Verde sem a menor cerimônia. O caso é tão grave que nem a sua esposa, dona Evarista, ele hesita em aprisionar no asilo, pois para ele, como homem da ciência, seus atos estão acima do bem e do mal e não precisa justificá-los a pessoas comuns.


Naturalmente, toda a cidade, que antes aprovava os métodos investigativos do médico, passa a se questionar acerca dos procedimentos que ele tem utilizado para determinar quem é louco ou não, bem como quem vai parar sem aviso prévio em seu abrigo. A verdade é que Itaguaí se torna um continente a ser conquistado e Simão Bacamarte, o colonizador que desbrava esse “novo mundo”. Assim também é com a Casa Verde, que se torna uma espécie de templo e o alienista o seu sacerdote. Todas as críticas feitas são desqualificadas por ele, que acredita que a rejeição do povo é apenas mais uma prova do desequilíbrio mental de seus opositores.




Não vou dar spoiler apesar da vontade ser grande, coisa que nunca senti escrevendo resenhas, só o Machado mesmo! Mas posso dizer que depois de conseguir a autorização para construir o abrigo para acolher os loucos da cidade e começar a ver todo mundo como doido, a trama se desenrola recheada de crítica social e muita ironia (Machado, né, mores?).

O Alienista foi publicado entre 1881 e 1882 e fez parte da coletânea Papéis Avulsos, editada em 1882. Pelas datas da obra dá para ver que ela nos coloca em um século que se apresentava como cientificista e também nos dá uma noção dos ideais republicanos e do positivismo que rolavam na época; porém, é claro, isso não era uma realidade que se aplicava a todos: o olhar cético de Machado permanece. Acho que é possível dizer que o escritor já traz uma discussão sobre a ciência, o poder e a loucura, coisa que só foi debatida abertamente nos anos 1960. Machado examina a loucura sob uma perspectiva decisiva para essa questão: a política. Ou seja, interessa a Machado analisar o jogo de forças em torno da normatização posta pela ciência de Bacamarte (e dos seus critérios para avaliar quem era normal ou não). Se pensarmos dessa forma, a ciência se torna um exercício de poder sobre os indivíduos de Itaguaí, que autoriza Bacamarte a, de forma muito autoritária, sair prendendo todo mundo.


O Alienista é uma obra de ficção e deve ser tratada como tal, seu compromisso com a verdade, por mais incisivo que seja, é de outra ordem. Mas a literatura nos apresenta e nos coloca em situações-limite capazes de nos mostrar a verdade de muitas formas. Acho que no caso de O Alienista, a situação-limite que nos é apresentada é a verdade que existe na própria loucura e como lidamos com ela. Sempre que escrevo uma resenha penso em questões políticas do Brasil, não que eu busque uma explicação em todas as obras que leio ou que procure um jeito de encaixá-las no nosso contexto social, mas é que um livro, apesar de se tratar de ficção, como eu disse, não é algo fechado em si mesmo e sempre nos permite pensar além. Afinal, se não fosse isso, as obras não sobreviveriam séculos para serem lidas e relidas.


Digo isso porque em O Alienista aqueles que foram encarcerados na Casa Verde, assim como muitos foram em algum manicômio real do Brasil, em dado momento perturbaram a ordem apenas com a sua mera existência. Que verdade Machado quis trazer quando falava de loucura em seu texto? A quem pertencia essa loucura? Ele não lança nenhum olhar de inspeção assim como não fala da loucura como um comportamento a ser analisado. Não há nenhuma preocupação em definir o que é loucura em seu texto. O que fica parecendo é que, no lugar do projeto enlouquecido do próprio Simão Bacamarte, Machado não quer colocar ou explicar nada, apenas puxar o tapete dessa ideia do que é considerado “normal” pela sociedade. A forma como ele faz isso é muito sutil e ao mesmo tempo muito bem construída e organizada no livro. É a grande sacada da obra!


Vale a pena lembrar que vivemos um momento histórico delicado, no qual está sendo determinado, assim como no livro, quem são aqueles que perturbam a ordem vigente apenas com sua existência e qual deve ser o seu destino. Vemos também em que medida o Estado tem poder sobre esses corpos. Não me arrisco a determinar aqui quem são esses e acho que não preciso, nós sabemos quem são. E os destinos que são apresentados como solução são os piores possíveis. É apenas um corpo na mão do Estado esperando para ser “curado”. O texto machadiano não estabelece uma relação direta com o que experimentamos aqui, mas nos permite utilizá-lo como uma forma de questionar o que aceitamos como “normal”, bem como nos convida a reavaliar nossas certezas. É um convite para olhar.


Recomendo a leitura de O Alienista porque é sempre bom aprender com Machado. O Alienista é um excelente começo não só para olharmos para o passado, mas para vermos bem o presente. Machado, em poucas páginas, nos mostra a tensão na cidade provocada pela tirania, de Simão Bacamarte, bem como nos leva ao questionamento do que é sanidade e loucura. Além disso, o livro nos ajuda a olhar para a realidade na qual estamos inseridos e pensá-la criticamente, pois, segundo Daniela Arbex, autora de um outro livro que também fala sobre loucura e pode se aproximar a Machado, o Holocausto Brasileiro: “O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie. É tempo de escrever uma nova história e de mudar o final”.

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