Diálogos

Resenha: Histórias de Leves Enganos e Parecenças

Por: Aline Germano

09/08/2020


Como podem ver, Conceição Evaristo povoa meus pensamentos e é uma figura que estará sempre por aqui. Isso acontece porque Conceição é uma escritora extraordinária e a sua obra reluz em nós feito o vestido amarelo da moça de um de seus contos. A resenha desta semana é sobre “Histórias de Leves Enganos e Parecenças”, livro escrito em 2016, que nos faz experimentar sensações que vão desde o estranhamento até o encantamento por sua narrativa. A autora mineira provoca uma drástica mudança nessa obra percorrendo o campo do imaginário e do extraordinário.

Acho que é importante fazer uma breve apresentação da autora, uma vez que esta é outra conversa, outro livro, outro tudo. Conceição Evaristo é uma escritora mineira formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, titulou-se Mestre em Literatura Comparada pela PUC-Rio e Doutora também em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente, seus textos literários se popularizaram muito, além de serem adotados como complementação de bibliografias, o que confirma que se trata de uma das escritoras brasileiras mais lidas e estudadas no que se refere à reflexão sobre mulheres e sobre a comunidade negra.

Sendo assim, podemos observar na prosa evaristiana exemplos dessa ocorrência do mágico e do fantástico. O conto “Rosa Maria Rosa”, cuja personagem central aparenta ter algum problema, sempre com braços cruzados sobre o corpo, ilustra bem isso. Certo dia, durante um momento de distração, Rosa revela seu segredo a todos: ao levantar os braços, de seu suor pingavam “gotas pétalas de flores”. A mesma técnica de inserção do inesperado acontece com Andina Magnólia, protagonista do conto “O Sagrado Pão dos Filhos”. A jovem mulher, cansada da dificuldade para alimentar os meninos, um dia, a partir de uma estratégia improvável, decide assegurar o pão diário deles.

E é nessa nova forma de representação que se concretizam as histórias, sem que isso interfira nos fatos. Aliás, os textos revelam exatamente a realidade que já existe, só que a apresentam em uma forma incomum. O que Evaristo conta através do mágico ou do fantástico é projetado a partir de fatos históricos e de suas consequências na vida e no cotidiano do indivíduo submetido a uma existência difícil. O que acontece é que esses personagens já não reproduzem a lógica violenta que os cerca, mas se percebem críticos – e criadores – capazes de imaginar e planejar novos elementos e termos numa espiral de reflexão. São eles próprios os autores de outra representação da realidade que pensa a si e aos seus iguais.

Sendo assim, podemos pensar em “Histórias de Leves Enganos e Parecenças” como um livro político – no sentido mais amplo do termo – que não se faz ouvir na sua forma mais fácil. Mesmo quando assume mais abertamente seu engajamento político em sua literatura, Conceição Evaristo não recorre aos moldes simplistas do texto panfletário, mas resguarda sua forma literária como espaço fundado no estético e no lúdico. Parece uma pequena suspensão do mundo, que não é menos crítico, mas que traz uma beleza necessária para suportar o sofrimento. É um amparo emocional que supera a dor. Logo, se o discurso político se insinua – e se concretiza – não é através de reproduções ideológicas desgastadas, mas sim artisticamente interpretado por meio de procedimentos estéticos como o mágico, a tradição e a figura da mulher.

Nessa obra vemos o mesmo discurso de resistência e de resgate da identidade presentes em seus outros livros. Entretanto, essa antologia, por sua vez, conduz a múltiplas possibilidades de leitura e de apreensão do mundo. Diferente de “Olhos D’água”, que possuía um relato mais denso da realidade, “Histórias de Leves Enganos e Parecenças” é um retrato multifacetado tendo como estratégia o imprevisível para pavimentar as histórias. Preciso mencionar que, apesar das lentes distintas pelas quais a autora projeta seu olhar sobre a realidade, as narrativas permanecem com um tom poderosamente crítico e comprometido em denunciar as injustiças e desigualdades brasileiras.

Acredito que essa proposta de Conceição Evaristo utilizando o realismo mágico hispano-americano surge da necessidade de criar novas formas para representar a realidade. Considerando que o realismo mágico carrega, a princípio, um forte caráter ideológico determinado pelo seu aparecimento e desenvolvimento em áreas da periferia, é possível considerá-lo como um recurso literário com teor político forte. É uma literatura que busca “outra” realidade sem se desfazer completamente daquela em que se originou.

A união do real e do fantástico se revelou como um desafio às noções estabelecidas da realidade. A perspectiva do realismo mágico se fortaleceu na América Hispânica por ter sido capaz de questionar as relações entre razão e imaginação, preenchendo lacunas do real com soluções diversas, atribuindo-lhe novos significados. No auge de um período em que ditaduras políticas tentavam calar as vozes que se levantavam, a palavra se tornou principal arma de resistência. Está aí a obra de Conceição Evaristo: questionar as históricas violências cometidas pela classe dominante contra sujeitos colonizados, escravizados, marginalizados ou socialmente alocados numa posição inferior aos demais. Diante disso, a autora propõe uma releitura da história a fim de revelar que a perspectiva dominante pela qual os fatos históricos foram construídos e repassados determinam os papéis sociais atribuídos a todos os indivíduos. A proposta, portanto, é reler criticamente, com olhares atentos presentes no seu fazer literário, a narrativa que se apresenta como única.

Fica aqui a recomendação da leitura de “Histórias de Leves Enganos e Parecenças”. A escrita simples e sofisticada de Conceição é irresistível porque nos humaniza e sempre nos convida à transformação. Admito que os recursos que ela utiliza nessa antologia me fazem gostar especialmente desse livro. Sua escrevivência ainda está aqui com uma cara nova que nos convida a experimentar uma outra forma de ler suas histórias. É a mesma escrevivência que tem como suporte a narrativa baseada nas experiências individuais e coletivas, não somente pela temática racial, mas também por suas incríveis escolhas estéticas. Ler Conceição Evaristo sempre é uma surpresa maravilhosa, não só pela forma como as narrativas se constroem, mas pela beleza que há em cada uma delas. As suas palavras, intensas e precisas, são evocadas com a mesma força que “O sagrado pão dos filhos”, e como ele, se tornam abundância capaz de nos dar o que precisamos.

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