Diálogos

Resenha: Fahrenheit 451

Por: Aline Germano

20/06/2020


Fahrenheit 451 foi um livro que passou num piscar de olhos para mim. Escrito em 1953, é considerado um dos principais romances distópicos da literatura mundial. Nessa realidade, a população é submetida a um governo totalitário, no qual as ações dos indivíduos são controladas e a leitura é totalmente proibida. As autoridades detêm poder total sobre os meios de comunicação e, consequentemente, sobre a vida da maioria das pessoas. A alienação massiva e o constante estímulo consumista faz com que os indivíduos “naturalmente” abandonem o interesse pela literatura ou pelas artes de modo mais geral. Sem espaço pra teatros, concertos, ou qualquer manifestação artística que leve ao pensamento crítico, a população vai perdendo aos poucos a sensibilidade e a capacidade de analisar os fatos. Responsável por queimar livros, o corpo de bombeiros, braço do Estado totalitarista, controla a disseminação de informações. É nesse contexto que Guy Montag, um bombeiro que provoca incêndios ao invés de apagá-los, tem uma experiência transformadora provocada pela amizade com sua vizinha, Clarisse McClellan.


Apesar de uma postura acrítica e passiva diante da própria existência, Montag passa a questionar a realidade que o cerca, bem como sua profissão, relacionamentos e a própria condição humana. Diante de tantas dúvidas e angústias, ele decide mergulhar nessa nova experiência e se deixa arrebatar pelos livros. O contato com a leitura o transforma completamente e o protagonista decide abandonar a atitude conformista para se tornar um “criminoso” por ler e manter livros em casa, desafiando assim a ordem estabelecida. Acho que o livro todo passou muito rápido porque o autor reacende várias questões que estão diretamente ligadas ao poder do conhecimento pros cidadãos, especialmente como uma forma de se levantar contra governos autoritários. A consciência e o pensamento crítico são fundamentais para corromper sociedades doentes e garantir que pessoas tenham seus direitos básicos assistidos, tanto que queimas de livros são mais comuns do que podemos imaginar, seja na Alemanha nazista, na revolução chinesa ou no Chile, quando milicos, a mando de Pinochet, queimaram literatura marxista em 1973.

​Em 1933, quando os nazistas queimavam livros em praça pública, Freud, “pai” da psicanálise, fez o seguinte comentário: “Que progresso estamos fazendo. Na Idade Média, eles teriam queimado a mim; hoje em dia, se contentam em queimar meus livros”. Ironias freudianas à parte (ironia mesmo, porque se Freud soubesse dos crematórios nos campos de concentração, perceberia a ingenuidade mórbida da sua fala), a proibição e a queima de livros é a tônica de Fahrenheit 451, romance de Ray Bradbury.

Ainda que vivamos numa sociedade que lê muito pouco (a média do brasileiro é de 2,43 livros* por ano), pensar numa realidade na qual livros são proibidos soa exagerado até pros menos entusiasmados. Pois é justamente esse o cenário desse clássico da literatura: intelectuais perseguidos, manipulação de informações, livros censurados; poderia ser o Brasil de 2020, mas é num futuro alternativo não muito distante.


"Deve haver alguma coisa nos livros, coisas que não podemos imaginar, para levar uma mulher a ficar numa casa em chamas; tem de haver alguma coisa. Ninguém se mata assim a troco do nada."

Em 1966, o cineasta francês, François Truffaut lançou sua adaptação cinematográfica do romance de Bradbury. Com nomes como Oskar Werner e Julie Christie como protagonistas, o livro ganhou mais notoriedade e relevância já que o filme foi um enorme sucesso de público e crítica. Até hoje se mantêm como um filmaço.

Aproveitando que já falei da versão de 1966, acho que vale a pena dizer que quando decidi ler Fahrenheit 451 foi por causa do filme de 2018. Sim, tem uma adaptação bem recente feita pelo diretor estadunidense Ramin Bahrani. O mundo mudou um pouco desde 1953 (ano em que o livro foi escrito) e 1966 (ano do filme de Truffaut), mas o futuro alternativo criado por Bradbury fica cada vez mais perigosamente parecido com a nossa realidade. Foi a partir desse contexto inesgotável que Bahrani decidiu lançar sua própria versão em 2018. Apesar de muito bom e de nomes como Michael B. Jordan e Michael Shannon no elenco, o filme passou batido pelo público e recebeu críticas bem negativas devido ao distanciamento da história do romance. Purismo sem sentido. Essa cobrança por fidelidade deveria se basear no espírito que permeia o romance de Bradbury. O filme mantém a essência do romance. E muito.


Recomendo demais a leitura de Fahrenheit 451. Não só por se tratar de um clássico da literatura distópica, mas porque a trama se renova ao ponto de ainda ter muito para dizer. É quase impossível não comparar com nosso cenário político; vivemos um tempo em que a ciência é negada, informações são, literalmente, escondidas da população e no qual a censura nos ameaça sorrateiramente a cada dia. É muito bom observar a mudança de pensamento que o protagonista sofre por causa do contato com os livros; é uma narrativa que propicia reconhecimento. O mais curioso é que a discussão que essa leitura levanta parece óbvia: "o conhecimento liberta pessoas", mas não é. Na verdade, está longe de ser. Se isso fosse óbvio, não viveríamos o que estamos vivendo no Brasil em pleno 2020. A narrativa traz desconforto, mas acaba fazendo a gente lembrar quais são as armas para tempos de obscurantismo e de truculência. Não vamos esquecer.

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