Diálogos

Resenha: Elena - Petra Costa

Por: Yan Alberto

    "As memórias vão com o tempo, se desfazem. Mas algumas não encontram consolo, só algum alívio nas pequenas brechas da poesia".

    Perto do fim de "Elena", essas palavras são ditas por Petra Costa, resumindo todo seu filme. Um registro documental poético, que, muitas vezes, questiona o limite entre documentário e ficção, numa obra absolutamente humana e pessoal.  

    O longa funciona como uma carta de Petra à sua irmã, Elena, que cometeu suicídio aos 20 anos de idade. Para isso, a diretora trabalha com muito material de arquivo, que envolve filmes caseiros e diários gravados por Elena. É como abrir um álbum de família para todo mundo ver.

    Mais do que uma estética interessante ou uma trilha musical bem escolhida, a beleza da obra já surge na coragem que a diretora tem de contar essa história com tamanha sinceridade. A segurança com que ela o faz, cria um universo onírico, carregado de sensibilidade e delicadeza. Mas também completamente claustrofóbico e cruel. É curioso como Petra elabora um tipo de suspense ao redor do que aconteceu à irmã, ainda que você já saiba. Mesmo assim, quando ela finalmente mostra, o embargar na garganta é inevitável e você também mergulha no sentimento daquela perda.

    O filme começa com um voice over falado pela diretora, direcionado à Elena, contando sobre um sonho que teve. A Petra que fala é aquela menina de 7 anos, que ainda não entendeu muito bem o que aconteceu à irmã. Uma fala mansa, com uma leveza quase cômica, contrapondo o desgosto e desilusão que tomam conta de Elena à medida que a narrativa avança.

    Ela nos guia para dentro desse mundo de poesia, numa Nova York de sonho, feita de desfoques, planos muito fechados ou luzes fortes demais, que não trazem qualquer conforto. É aí que vemos uma mulher caminhando pelo labirinto de concreto e asfalto das ruas da cidade. Petra surge como um avatar ou um espectro de Elena, passando pelas mesmas ruas que a irmã percorreu. Ela interpreta a si e a irmã. Vozes de familiares contam como ela sempre foi muito parecida com a irmã mais velha. Alguns até a chamam pelo nome dela. Quem sabe, se ela for igual a Elena, talvez, enfim, a encontre?

    O tempo todo, Petra não apenas conta a história da irmã, mas, em sua busca por esse ser de quem tem tão poucas memórias, ela se transforma em seu duplo. E, embora Elena seja tratada quase como uma fantasia ou uma lenda em certos momentos, a diretora faz questão de nos mostrar uma Elena de carne e osso, de verdade, através das filmagens caseiras. Ou seria para que ela própria se lembre disso? Uma menina com sonhos, aflições e dores bem reais, que almeja o cinema norte-americano e habita os palcos do teatro com sua arte do corpo, carnal. Em um fragmento, ela aparece dançando com um rastro de luz. "Eu tô dançando com a lua". A mesma garota também dança com uma corda que se enrola ao redor de todo seu corpo. 

    Esses entreatos de realidade no mundo de sonho que Petra criou, mostram quem foi Elena. Particularidades e pequenos detalhes que compõem sua memória. Mas Petra também é humana. Também foi tocada pela depressão, pensou em se matar e também se formou atriz. O mesmo pode ser dito de sua mãe. 

    Aliás, ela sabe que essa tristeza, essa morte, é um elo entre as três mulheres e não faz nenhuma questão de esconder o sorriso em sua voz ao falar da mãe, que nos entrega os momentos mais viscerais da obra. Sempre enquadrada em planos super fechados, que querem entrar na cabeça dessa mulher e desvendar o que é a perda de uma filha para uma mãe, quando ela é obrigada a reviver os últimos momentos de Elena. Dotado de uma crueldade preciosa, é a melhor parte do filme. A mais sensível. "Depois que você morre nossa mãe vira saudade. Sempre com o olhar distante, triste". E, mesmo assim, essa mãe ainda consegue esquecer sua dor por uns instantes para apreciar a beleza das cores de uma árvore ali na rua.

    A culpa é outro sentimento em comum entre mãe e filha. "Ela é assim", Petra responde a uma amiga da infância, que viu Elena triste, na cama. "Ela é assim", ela repete com uma fisgada de dor na voz. "Daí eu fui pro quarto e ela começou a chorar de soluçar. E eu não fui lá...", diz a mãe em outro momento. Incapazes de consolar Elena, as duas também estão ligadas por esse sentimento de culpa. "Você é a minha memória inconsolável, feita de pedra e sombra. E é dela que tudo nasce, e dança."

    Do meio pro final, as "personagens" de Petra e Elena realmente se cruzam, se misturam. "A pequena sereia aceita passar pela dor de uma faca atravessando seu corpo, sangrando seu corpo, pra ganhar pernas e assim dançar”.  Num oceano de angústia, é difícil dizer quem fala. Você imagina que seja Elena, mas parece Petra, e podem ser ambas. "Me vejo tanto em suas palavras que começo a me perder um pouco em você". Petra se une à memória da irmã, buscando se tornar Elena, para que possa, enfim, se afastar e deixá-la ir. Nessa jornada, ela encontra quem é a Petra e, talvez, até um pouco da mãe. 

    Petra não quer que você simplesmente conheça a história da irmã ou seu processo de busca por ela. Não quer que você lamente por ela ou por sua família. Me parece que a ideia dela é, através desse retrato, mostrar que você também pode resgatar a sua Elena, que, até então, esteve adormecida em suas próprias memórias. Ela consegue fazer com que você se identifique com sua história, mas a dor dela não é a sua. A perda dela não é a sua. A perda ou busca por Elena é ressignificada por você, como uma música que se ouve e, independente do sentido que ela tenha para o compositor, você a traz para sua verdade. O filme é tanto dela, quanto seu.

O início e o final, onde Petra, sua mãe e outras mulheres flutuam em água corrente, fazem uma referência a Ofélia, personagem de Hamlet, que morre afogada em um provável suicídio. A moça amava Hamlet e, privada de seu amor, começa a mostrar sinais de loucura após a morte de seu pai, assassinado por seu amado. Ela fica tão aflita que não se dá conta da própria desgraça, de modo que canta até o último suspiro. A morte cantante de Ofélia traduz o alívio de uma alma perturbada.

Elena é Ofélia. Petra e sua mãe também. Elas flutuam nas águas da lembrança, incapazes de esquecer. Mas, nas palavras da própria Petra, "pouco a pouco, as dores viram água... Viram memória".


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