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Diálogos

Resenha: 2GETHER

Atualizado: 15 de Set de 2020

Por: Natália Seixas

08/08/2020


A resenha dessa semana foi feita especialmente para os amantes de comédias românticas! Mas, primeiramente, eu tenho que perguntar: você gosta da trama clássica de cheerleader se apaixonando pelo atleta cobiçado? Ou prefere a situação de alguém fingindo estar em um relacionamento para afastar uma pessoa interessada nela? Quem sabe a ideia do protagonista entrar para o clube de música e aprender a tocar um instrumento com a crush seja mais cativante? Ou talvez aquela paixão que rola à primeira vista e demora anos para se concretizar seja mais a sua vibe? Mas tenho certeza que tanto o bom e velho de amigos a amantes quanto o sofrimento básico e mútuo no qual ambos pensam que o amor não é correspondido tem um lugar bem especial no seu coração.

Se uma, ou todas, essas tropes [1] te interessaram, a série 2gether foi feita para você!


A história começa quando o universitário Tine, calouro da Faculdade de Direito, ganha um admirador gay que faz investidas bem espalhafatosas. Tine, sendo a pessoa fofa que não consegue rejeitar ou magoar alguém intencionalmente, tenta de diversas formas mostrar que não está interessado. Contudo, ele acaba fracassando espetacularmente em todas elas. A solução que ele e seus amigos encontram é uma só: Tine tem que convencer Sarawat, o garoto mais bonito e popular da faculdade, em fingir ser seu namorado para conseguir se livrar de seu admirador. E não, Tine não tem a menor ideia de que ele gosta de meninos também. Para melhorar a situação, Sarawat canaliza uma energia que só pode ser definida como a de um tsundere [2], o que complica um pouco a vida de Tine; mas isso é ótimo porque o jeito de ser do Sarawat empurra o Tine para fora de sua zona de conforto e o obriga a crescer como pessoa.

Eu não vou dar muitos spoilers para não perder a graça para quem não viu a série ainda e ficou curioso agora que está lendo essa resenha, então eu vou falar apenas dos meus aspectos favoritos.

Primeiramente, os personagens são maravilhosos porque eles são cativantes e você consegue se identificar com eles. Ainda que seja uma comédia romântica, os personagens são complexos e passam por situações que os forçam a lidar com seus medos e anseios. Apesar de ser uma história leve e relativamente alegre, existem conflitos e não é superficial. Um aspecto bem atraente da série (para mim pelo menos) é o fato de que na maior parte do tempo, o drama criado no episódio não se estende. Eles deixam os ganchos para o próximo episódio, mas a resolução se dá quase por completo no mesmo episódio. Você tem a sensação que é bem fechadinho, ainda que há uma clara conexão entre um episódio e o seguinte.

No geral, 2gether é uma série que fez boas escolhas. A única coisa que a série peca de verdade é em relação a representação feminina. Não existe nenhuma figura feminina proeminente ou que não esteja lá para adicionar drama a trama principal. Isso é um problema recorrente em séries do gênero BL [3] e, de certa forma, em séries orientais no geral. As figuras femininas sempre deixam a desejar de uma forma ou de outra e isso precisa ser melhorado.


Apesar desses pontos negativos, eu gostei muito do desenvolvimento em si. A equipe de escritores foi bem inteligente quanto à construção da série. Eles conseguiram ter um bom ritmo e não perderam tempo em coisas que outras produções provavelmente teriam focado apenas para intensificar o drama. Foi bem orgânico o progresso da relação do Tine com Sarawat, pois eles não vão de estranhos a namorados de uma hora para outra. Eles se tornam amigos e a vida deles vai, aos poucos, se mesclando ao ponto dos amigos deles se tornarem amigos entre si. Logo, as dinâmicas entre os personagens ─ não se limitando a do Tine e Sarawat ─ parece natural, o que é sempre positivo.

Honestamente, considerando a série inteira, os únicos pontos fracos mesmo foram os dois episódios finais. Ainda que tenha tido um final satisfatório, foi criado um drama desnecessário que, no final das contas, não foi bem aproveitado para nenhum dos personagens envolvidos. Questões como a baixo auto-estima de Tine e como ele não se vê como alguém que tem muito a oferecer ao Sarawat como namorado poderia ter sido explorado ao invés do que fizeram. Faltou bom senso aos escritores quando eles decidiram criar intriga usando uma amiga antiga de Sarawat apenas para fazer um drama de última hora ─ o que foi um pouco decepcionante, pois eles tinham feito um bom trabalho até o episódio 11.


O que realmente me encanta em 2gether é o fato da série dar espaço às pessoas LGBTQIA+ em viver uma história de amor idealizada. Não é comum romances gays serem retratados da forma que 2gether fez. Os elementos de comédia romântica explorados na série combinado com as tramas extremamente clichês só vemos mesmo em romances heterossexuais. Assistir 2gether é revigorante porque nos oferece um mundo irreal, no qual maior parte das pessoas nem pestanejam ao mencionar que um garoto gostar de outro. Nós, pessoas queer, não experienciamos romances idílicos no universo do entretenimento, não de forma canônica pelo menos. O cinema, a televisão e a literatura, na maior parte das vezes, dão apenas o espaço de apenas de sofrimento e morte para as pessoas LGBTQIA+. Então, uma série como 2gether, que retrata o amor entre dois rapazes de uma forma agradável, bonita e divertida é quase revolucionário; especialmente para pessoas que não cresceram com nenhuma representatividade como essa série. Honestamente, a coisa mais próxima que tive de 2gether na minha adolescência foram fanfics de universo alternativo e só. Não tenho vergonha de admitir que 2gether virou uma das minhas séries favoritas e só quero mais e mais histórias como essa. Afinal, se eu quisesse ver a tragédia que significa ser LGBTQIA+, eu não precisaria recorrer a mundos fictícios, era só eu acessar um portal de notícias para ler sobre a mais nova vítima de assassinato por ser quem é.

Enfim, eu resolvi a fazer essa resenha porque na próxima semana será lançado o primeiro de cinco episódios sobre a vida de Tine e Sarawat depois que a série acabou. Então, achei pertinente falar um pouco dessa série fofíssima, que deixa meu coração quentinho toda vez que eu assisto. Caso queiram ver um pouco mais da série antes de assistir, aqui está o trailer oficial. Você pode assistir a série pelo canal do youtube da GMMTV (não tenho certeza se tem legenda em Português em todos os episódios lá) ou você pode assistir pela Meow Fansubs. Se alguém assistir porque leu minha resenha, por favor deixe um comentário lá no post do Instagram para eu ver e responder! Amo saber da experiência das pessoas que assistiram algo que recomendei!

[1] Em narrativas, tropes são conceitos que a audiência reconhecerá e entenderá imediatamente a partir de usos de determinados elementos. Por exemplo, uma famosa trope é o Ato do Amor Verdadeiro, em que um dos personagens faz algo em nome do amor. Pense na Fera quando libertou Bela de sua promessa de ficar no palácio para poder salvar o pai na animação da Disney.

[2] Tsundere é um termo japonês que designa um tipo bem particular de personagem: uma pessoa que é ríspida e rude num primeiro momento, mas aos poucos, fica claro que é fachada e a pessoa é bem emocionalmente vulnerável. Pense no Gru de Meu Malvado Favorito, ele é uma boa representação de tsundere.

[3] BL é a forma abreviada de Boys Love, um gênero de séries, filmes, animes, mangás e romances orientais que tem como característica principal o romance entre dois homens. Na verdade, está se criando uma indústria que, a cada ano se expande mais. O Cattártese falará um pouco mais sobre esse gênero no futuro.

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