Diálogos

Resenha: "É Isto Um Homem?'

Por: Aline Germano

04/07/2020


"Desejaríamos, agora, convidar o leitor a meditar sobre o significado que podiam ter para nós, dentro do Campo, as velhas palavras “bem” e “mal”, “certo” e “errado”. Que cada qual julgue, na base do quadro que retratamos e dos exemplos que relatamos, o quanto de nosso mundo moral comum poderia subsistir aquém dos arames farpados.”

“É isto um homem” é um dos livros mais comoventes sobre a história do holocausto que eu já li, e para ser bastante franca, é a leitura mais agoniante que já fiz até hoje. Não “apenas” porque trata de um dos episódios mais brutais que a humanidade já foi capaz de empreender, mas porque o vemos pelos olhos de um sobrevivente. O livro explora os acontecimentos vivenciados por Primo Levi quando foi levado, aos 24 anos de idade, para o campo de concentração de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial, depois de ser detido por uma milícia fascista e conduzido para interrogatório como suspeito de integrar um grupo de guerrilheiros antifascistas. Ao revelar que é judeu, Primo Levi é preso e obrigado a viver em condições de vida precárias no campo de concentração. Apesar de não atribuir juízo de valor em momento algum da narrativa, o seu relato é impressionante. O nível de desumanização é tão grande, que em muitos momentos precisei interromper a leitura por não conseguir absorver tanto sobre a barbárie que nós somos capazes de cometer.


Mantido longe de qualquer vestígio de humanidade (sim, uma das questões centrais da narrativa é a perda da dignidade humana), Levi aos poucos vai tentando se adaptar a sua nova condição ao mesmo tempo em que observa a degradação do caráter das pessoas quando são expostas a uma realidade cruel e autoritária. Gostaria de vir até aqui dizer que se trata de uma leitura simples e relativamente curta, mas não é possível: é a crueza do que foi o holocausto e da compreensão da perda da vida humana; e testemunhar a corrupção do espírito humano deve ser uma das piores experiências que se pode ter. Uma das coisas mais incríveis que essa leitura permite é a nossa aproximação com aquilo que Levi viveu; pois, se a princípio ele se dirige ao leitor como uma pessoa afastada de sua vivência, ao longo de sua narrativa ele nos faz ver por tudo que passou ao mesmo tempo em que nos convida a um exercício de compreensão, nos pedindo para considerar como agiríamos se estivéssemos nós também em Auschwitz.

“Das quarenta e cinco pessoas do meu vagão, só quatro tornaram a ver as suas casas; e o meu vagão foi, de longe, o mais afortunado.”

É claro que não tem como falar sobre um livro que trata de temas tão delicados e importantes para os tempos em que estamos vivendo, como a ascensão do fascismo, a violência extrema e o desprezo pela vida, sem pensar no atual cenário político brasileiro. Porque literatura é isso: é pensamento crítico, é reflexão, é análise e é política, principalmente, mesmo quando tentam fazer parecer que não é. Não tenho a menor intenção de comparar nosso contexto ao holocausto, não poderia fazer isso. Mas se considerarmos a situação-limite que estamos vivendo nessa guerra pela vida, acredito que podemos aproximar a narrativa de Levi, sim, à pandemia do novo coronavírus no Brasil. Não estamos próximos do que foi Auschwitz, mas a ideologia que promoveu Auschwitz, certamente, não é estranha para nós. O testemunho brutal desse químico é capaz de nos levar a uma reflexão sobre a nossa condição se pensarmos na forma como essa pandemia tem sido tratada desde o início no país.

Sim, como pertenço ao grupo (composto por dezoito pessoas) que faz o isolamento social proposto pela OMS, estou aproveitando esse tempo para botar os livros em dia. E ao contrário do que alguns podem supor, tenho critérios estranhos para selecionar minhas leituras, tendo em vista que escolhi ler sobre o holocausto em plena pandemia e no meio de uma crise política no país. Poderia ter sido mais simples, mas com promessas de ler desde 2014, decidi que era hora de encarar Primo Levi.

Começo dizendo que há livros cuja mensagem é tão profunda, tão dilacerante, que pouco resta ao resenhista acrescentar, correndo o risco comprometer e estragar tudo que já foi exposto de maneira única, porque o livro fala por si só. É meu caso com “É isto um homem?”, escrito por Primo Levi, um dos mais poderosos autores do século XX. Escrevo com respeito e admiração profunda por seu trabalho corajoso e comprometido em resgatar a força da memória. É comum se referir a esse tipo de obra utilizando a expressão “literatura de testemunho”, que tem rodeado os debates a respeito de narrativas que tratam de episódios relacionados a eventos traumáticos, como aconteceu a Levi.

O desprezo pela vida sempre foi a maior característica do governo Bolsonaro, isso não dá para negar. Sua política é a política do ódio e da morte. Foi eleito por isso e para isso. E desde a sua eleição passamos a viver em um Estado cujos objetivos são os de privilegiar um grupo em detrimento do outro e estabelecer quem deve viver e quem deve morrer; sua política da morte só se agravou durante a crise do coronavírus, já que fica bem claro quem tem o direito à segurança de não ser contaminado e quem “pode” ser contaminado sem problemas; não por acaso, a primeira morte foi a de uma empregada doméstica (cujo nome nem encontrei para poder escrever aqui) que sequer teve direito ao isolamento social remunerado. Outro caso bem mais recente, mas não menos chocante, foi o das aglomerações que se formaram no primeiro dia de reabertura de bares, no dia 02 de julho, no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Esses casos representam muito bem a realidade do Brasil com suas questões de racismo estrutural e desigualdade social. Ao que parece, ficar sem empregados à disposição ou não poder tomar aquele chopp em plena quinta-feira parecem ser mais graves do que as 63.254 mortes causadas pela covid-19, pelo menos para as classes mais altas do Brasil, para quem, via de regra, não há muitos problemas mesmo.

A partir desses pontos, já é possível compreender o porquê de vivermos uma política - em plena execução no governo de Jair Bolsonaro - que visa o genocídio da população mais pobre. Os exemplos são vastos e intermináveis: fuzilar a petralhada, mandar os desafetos políticos para a Ponta da Praia, enaltecimento de torturadores, elogio à atuação de milícias no Rio de Janeiro (feita pelo próprio filho de Bolsonaro, o zero não sei qual, 02, eu suspeito) e por aí vai. O fato é que os tempos são outros, mas o caos, a desumanização, o racismo e a capacidade de matar pessoas como gado seguem os mesmos.

É muito difícil tentar encerrar o texto depois de tanto, mas recomendo a leitura de "É isto um homem?" não apenas por se tratar de um livro sobre o holocausto, mas por Primo Levi ser capaz de nos apresentar algo além do sofrimento e da barbárie. Apesar de experimentar um grau de aniquilamento de sua humanidade impensável para quem não foi exposto ao limite do sofrimento, ele ainda nos mostra que podemos resistir à crueldade. Se vivemos tempos terríveis nos quais somos encorajados a desprezar a vida do outro, justamente por isso, devemos preservá-la. Se, como relembra Levi, “estamos numa grande engrenagem para virarmos animais, justamente por isso não devemos nos transformar em animais.”. Se as políticas perversas, como a de Bolsonaro nos ameaçam e nos expõem todos os dias a uma morte quase certa, Levi nos lembra que ainda resta uma opção e que devemos nos esforçar por defendê-la a qualquer custo, porque é a última: a opção de recusar nosso consentimento.

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