Diálogos

Pearl

Por: Yan Alberto

13/07/2020


Querida Família,

Falar da Janis não é tão fácil quanto eu imaginei que seria. Já escrevi, apaguei e escrevi novamente algumas vezes, até perceber isso. Não é como carregar uma blusa estampada com o rosto dela e dizer que gosto muito de sua música. Não, isso é fácil. Mas falar da Janis não é. Por isso o faço como ela também o fez, mais de 50 anos atrás, nas cartas à Dorothy e Seth - ou, como ela chamava, mamãe e papai.

Não me lembro com exatidão do momento em que fomos apresentados. Desde muito cedo, fui educado no rock pela minha mãe e meu padrinho. Cresci com os solos impossíveis de Mark Knopfler, no Dire Straits, e com toda energia bucólica do The Smiths. Até os dias de hoje, não há nada que eu queira mais do que o guarda-roupa do Elton John, e não há um acontecimento sequer da minha vida que eu não possa relacionar a alguma música do Pearl Jam, minha banda favorita. Mas a Janis é diferente, porque não veio dessa mesma fonte. E, talvez, por isso a minha visão do que é Janis Joplin seja muito particular. É uma coisa absolutamente minha.

Talvez você já tenha começado a se perguntar, mas não. Esse não é um artigo acadêmico sobre a influência de Janis Joplin no mundo da música, ou qualquer coisa do tipo. Não me preocupo muito com a Janis "Rainha do Rock n' Roll" ou na "Maior cantora de rock dos anos 60". Eu quero te mostrar a Janis que vibra através dos meus fones de ouvido todos os dias, religiosamente, desde aquele primeiro "Cry Baby". Me permite essa pequena dose de egoísmo?

Sei que Cry Baby foi a primeira música dela que ouvi e, amigos, eu nunca vou esquecer a sensação de ouvir aquela voz subir e rasgar a minha alma em duas. Toda aquela paixão crua, emotiva, rebelde e cheia de senso de humor. Ali, eu viria a descobrir mais tarde, eu estava completamente certo e errado ao mesmo tempo. Tudo o que sei é que, enquanto aquela mulher cantava sobre um amor perdido, eu encontrava um amor para a vida inteira.

Janis dizia que estar no palco era como fazer amor. E ela fazia. Mas, na realidade, depois de todo aquele verdadeiro dinamite, - assista a qualquer apresentação dessa mulher ao vivo e me diga se há melhor definição - o que sobra é uma ilusão. Quando o público vai embora, você é deixado consigo mesmo e é obrigado a lidar com isso. E Janis precisava ser amada. Precisava da atenção e descobriu ainda muito jovem que se você causa problemas, você será notado. Apenas a aceitação de milhões poderia compensar tudo pelo que ela passou enquanto crescia e foi isso que moldou a Janis como artista, mas não como pessoa. Ela não permitiria que seus motivos mais pessoais falassem mais alto do que ela, porque ela sempre amou a todo mundo, mesmo que isso seja um pouco solitário. Quando me permiti observá-la melhor, notei que todas as suas canções eram tristes. Talvez, por isso o blues. Ela sentia a dor de todo mundo. E, talvez, por isso a heroína. Para que ela não se sentisse obrigada a se envolver com tudo isso.

Eu não a conheci pessoalmente, ela faleceu dois meses antes de minha mãe nascer. Mas a Janis é, provavelmente, minha melhor amiga. A relação que eu tenho com ela acabou se transformando num casamento cósmico e platônico. Ela é minha amiga, é minha amante e dona de uma saudade que eu não sei se é minha. Ou se em alguma existência já foi.

Não estou interessado em alguma análise detalhada ou estudo embasado preocupado em explicar os porquês da Janis Joplin. Prefiro ficar com aquela menina que vem me visitar pela manhã para tomar um sol. Ou aquela que se aconchega comigo na rede da varanda, enquanto a madrugada avança. Aquela que me diz que tudo isso aqui não faz a menor diferença, nem nunca fará.

Há! Eu te amo, Momma.

Mais do que você imagina.

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