Diálogos

Os Pesadelos Suburbanos de James Wan

Por: Yan Alberto

08/07/2020


Que o cinema é arte, todo mundo sabe. Você entra numa sala escura com mais 200 pessoas, alguém liga um projetor e pronto. Um universo se manifesta na tela grande e te bombardeia de emoções pelas próximas duas horas. Quando falamos de terror, esse universo ainda te segue até em casa, se esconde embaixo da cama e vai atrás de você quando levanta de madrugada para ir ao banheiro.

O artista firma esse contrato de responsabilidade com aquele que consome seu trabalho e é sempre muito gostoso discutir aqueles realizadores que mais mexem com a gente. Muito se fala sobre a galera lá de trás, que definiu as bases do cinema que fazemos hoje. Ou, então, o pessoal daquele cinema mais independente, com aqueles filmes que fazem um cinema refinado, muitas vezes com poucos recursos. Cheios de poesia, de questões sociais, morais e, geralmente, um monte de prêmios em festivais pelo mundo todo.

O cinema é arte e todo mundo sabe, mas o que muita gente se esquece de dizer é que ele também é indústria. E quando escrevo "também", não quero dizer que ele ou é arte ou é indústria. O mundo não se divide entre Blockbusters e os filmes da Nouvelle Vague. Entender que existe um "caminho do meio" pode ser muito saudável para os realizadores produzirem obras com conceito, substância e que, ao mesmo tempo, chamam público. Da mesma forma, isso serve para grande parte dos espectadores que dizem que cinema comercial não é arte. Já passou da hora de pararmos de falar esse tipo de coisa, não é mesmo? Até porque ninguém se alimenta de conceito e todo mundo gosta de dinheiro.

Um rapaz lá do Sudeste Asiático entendeu como usar todo seu conhecimento artístico para criar entretenimento de qualidade. Um cineasta que não só entende muito de cinema, mas que visivelmente se diverte bastante fazendo o que faz. Além disso, ajudou a renovar e popularizar o gênero do terror, que há tempos mostrava sinais de desgaste. A figura em questão é James Wan, um malaio de 43 anos que, além de ter um cabelo incrível, transforma em ouro tudo o que toca. Depois dele, a forma de assustar as pessoas nunca mais foi a mesma.

O Velho Terror, de Cara Nova

Em 2001, em parceria com o amigo roteirista Leigh Whannel, Wan começou a trabalhar no roteiro de um filme de terror, inspirado por seus próprios medos e pesadelos. Uma vez finalizado, selecionaram um trecho e o filmaram na tentativa de vendê-lo aos estúdios. Com a ajuda do compositor Charlie Clouser e alguns poucos atores, Wan e Whannel, que decidiu atuar no projeto, filmaram tudo com, praticamente, orçamento zero. Esse curta ficaria conhecido como Saw e serviria de base para um longa de mesmo nome.

Dirigido por James Wan e estrelado por Leigh Whannel, Jogos Mortais estreou em 2004, com o orçamento mínimo de $1.2 milhões. O filme foi filmado em apenas 18 dias, e faturou mais de $100 milhões de dólares, ao redor do mundo. Esse talento para fazer muito dinheiro com orçamentos bem reduzidos chamou a atenção dos grandes estúdios e se tornou uma das marcas de Wan.

O terror psicológico com um estudo de moral, quebrou certas barreiras do gênero. Por boa parte da trama, o público assiste a dinâmica de dois personagens, um médico e um fotógrafo, que não se conhecem e acordam acorrentados em um banheiro imundo. Há no chão um corpo ensanguentado, aparentemente morto, uma chave, uma arma e um serrote. Um cenário com apenas dois atores, que rendeu milhões de dólares e arrancou elogios mesmo daqueles que não eram entusiastas do gênero. Uma das franquias mais icônicas e rentáveis do horror nascia, com Wan e Whannel atuando na produção executiva de suas sete sequências.

Apesar das altas doses de violência, o filme não se rende ao gore, permitindo que a imaginação do espectador faça o trabalho. Jogos Mortais se mostra um longa com muitas camadas a mais do que seu título sugere, o que fica mais evidente quando ele começa a explorar o íntimo dos dois personagens principais. E aqui o tema fundamental em toda a obra de Wan, até hoje, se articula pela primeira vez: a família.

Wan fala sobre famílias em crise e heróis assombrados, onde há sempre uma mulher como pilar central ou laço que liga os personagens e move a trama. Suas assombrações surgem como metáforas para o crescimento ou para os desafios da maternidade, onde a vulnerabilidade do lar e do membro base da família abre brechas para o sobrenatural. Conversando muito com os temas de O Bebê de Rosemary e A Profecia, por exemplo.

Em Sobrenatural, 2011, Renai é a mãe sobrecarregada de dois meninos e uma bebê recém nascida, cujo marido não acredita nos fantasmas que ela vê. Cenário que não melhora nem um pouco quando o menino mais velho entra em um coma misterioso. Em Invocação do Mal, 2013, o casal de demonologistas Ed e Lorraine Warren vai a auxílio da família de Carolyn, que cuida da casa e das cinco filhas, enquanto o marido trabalha. Cinco crianças são cinco vezes mais motivos para as coisas darem errado. Na sequência, Invocação do Mal 2, a crise de desemprego do governo na Inglaterra abala as estruturas de Peggy, que luta para criar seus quatro filhos sozinha. Para completar, aqui entra em cena o núcleo familiar dos Warren, cuja filha adolescente ganha certo destaque e o casal precisa lidar com as consequências de trabalhar com paranormalidade.

O foco desse texto é o trabalho de Wan com o terror, mas é importante comentar que mesmo em suas mais recentes empreitadas longe do gênero, a família ainda é o centro da trama. Dominic Toretto, de Velozes e Furiosos 7, faz questão de enfatizar, a cada cinco minutos, que fará de tudo para proteger sua família. Já em Aquaman, herói e vilão são ligados pela mesma mãe. A única pessoa, na terra ou no mar, capaz de aplacar a fúria do antagonista e possibilitar qualquer interação não violenta entre os irmãos.Uma vez me questionaram se ele tinha algum tipo de problema com a mãe. Preciso me lembrar de perguntar isso a ele quando nos encontrarmos, um dia.

São todas mulheres fortes em sua própria fragilidade. Estão vulneráveis, mas não são vítimas. Apenas não conseguem lidar com o demônio sozinhas. Em certo momento, Ranai diz para uma enfermeira: "Sinto que o universo está querendo ver o quanto eu aguento, até desistir". Ao que ela responde: "Acho que o universo comprou briga com a mulher errada".

Ao relacionar suas assombrações com os dramas cotidianos vividos pelo espectador, podemos dizer que tudo na obra de Wan é sobre identificação. Sua primeira missão é fazer você se apegar e se importar de verdade com aquelas pessoas. Até porque, assim, assustar fica muito mais fácil. Esse sim, seu real propósito como realizador.

Através de uma variedade de planos que mostram os personagens em seus afazeres rotineiros, ele traz um tom despreocupado e familiar. As crianças brincando, a mãe arrumando a mudança, o cachorro correndo pelo quintal. Além disso, ele entende que não basta ter uma casa bem escolhida, você também precisa saber se mover por ela. A câmera literalmente flutua pelos corredores e cômodos da casa e te leva para um passeio pelo dia a dia daquela família. Girando de sala em sala e em volta do personagem, em longos planos sequência. O clima despretensioso te envolve e é aí que James Wan tem você na palma da mão.

Satisfeito em incluir o espectador naquela rotina, ele inicia um suspense de forma muito sutil. Vez ou outra a câmera mostra, através das janelas, o personagem ocupado do lado de fora, dando a impressão de que está sendo observado de dentro da própria casa, por exemplo. Ou quando ela acompanha o olhar do personagem. Se ele olha para um lado, a câmera também olha. Se ele olha para o outro, ela acompanha. Todo esse joguinho coloca você, que assiste, no papel de protagonista da cena. A câmera é espectador e personagem e você também é.

Wan também domina um plano aberto como ninguém. Nesses planos, onde se vê praticamente a casa inteira, tudo está em foco. O personagem, a mobília, o corredor lá atrás, a escada que sobe para o quarto das crianças. Aí o susto pode vir de qualquer lugar e, geralmente, ele quebra sua expectativa. O fato principal é que ele não tem pressa. Filma o mesmo corredor diversas vezes, a cada vez fazendo a casa parecer mais sinistra, com auxílio da música e da atmosfera pesada. Mas de que forma ele realmente te assusta e porque é diferente?

A Conquista do Susto e o Prazer pelo Medo

Em filmes de terror, o chamado jump-scare é super recorrente. O grande problema é que, por mais que você se assuste, os jump-scares não produzem medo de verdade. O conceito se resume a um momento de silêncio, seguido de uma criatura pulando na tela, de repente. Isso causa apenas uma reação momentânea e nem sempre o público reage bem. O talento de Wan reside em sua capacidade de desenhar um medo real no público e, no final, ainda completá-lo com um susto. Ele sabe como instigar o medo, sem recorrer a recursos fáceis e rápidos. E, melhor, faz você gostar de sentir medo.

De fato, ele usa sim os jump-scares, mas o faz de uma maneira que muitos não o fazem. O que o torna um diretor de terror tão eficaz é que, através da antecipação, ele, basicamente, conquista o susto. Por exemplo, uma das estratégias para lidar com sustos apresentada em Sobrenatural, se dá pelo que podemos chamar de um acúmulo cuidadosamente arquitetado. Numa sequência sem pressa e efervescente de tensão, a mãe do personagem de Patrick Wilson fala sobre o sonho que teve com a criatura Lipstick-Face. Enquanto fala, a câmera vai dela, para o filho e de volta para ela. Quando termina o relato macabro, após um segundo de completo silêncio e olhar perdido, o próprio demônio já mencionado aparece atrás de Wilson. Tudo isso acompanhado por um crescente repentino da música. Dessa forma, Wan permite que a tensão em seus filmes cresça até atingir um clímax, antes da tentativa de chocar o público. A mulher em cena pula de susto, e nós também.

Invocação do Mal usa da mesma técnica em uma de suas cenas mais assustadoras, quando as irmãs vêem a bruxa fantasma em cima do armário. Wan poderia simplesmente ter feito um corte seco entre o plano das meninas e o da bruxa, pegando o público de surpresa. Mas ele escolhe, antes, mostrar a irmã mais nova vendo e reagindo à criatura, para nos preparar e envolver. E ele só a revela quando a mais velha também olha para ela. Isso dá tempo para o público reagir antes que a música os atinja como uma pancada. Ele nos permite incorporar o papel daquela menina assustada, que lentamente olha para cima e vê o fantasma. Tudo isso torna o processo do susto muito mais divertido e vívido. Esse é um dos detalhes mais marcantes no trabalho do diretor. A criatura já estava lá, você só não tinha visto antes.

Aliás, o som é outro ponto crucial no trabalho de Wan, que evidencia como ele é tão importante, se não mais, quanto a imagem de um filme. Em Sobrenatural - Capítulo 2 há um longo plano sequência onde Renai, a protagonista, caminha pela casa, despreocupada, falando ao telefone. Um plano longo como esse, sem ambiência externa ou música de qualquer tipo, estimula o público a prestar atenção a cada mínimo detalhe. Talvez em busca de surpresas escondidas ou antecipando um susto. Porém, a habilidade de Wan para recompensar apenas o mais atento dos espectadores é singular nessa cena. Quando Renai passa por uma porta, rapidamente podemos ver a sala do outro lado. Lá no fundo, há um fantasma estrategicamente colocado, de forma que a luz que passa entre as cortinas contrasta com sua própria silhueta. Mesmo com essa aparição, o diretor não recorre a qualquer entrada musical para atrair sua atenção. Simplesmente permite que a cena continue, sem interrompê-la, da mesma maneira que a própria Renai passa pelo fantasma sem notá-lo. Mais uma vez, ele coloca o público no papel do personagem, completamente despreocupado.

Mas não é só no susto que seus filmes se sustentam. Tudo o que foi falado até agora só aponta como James Wan entende o gênero que trabalha como ninguém. Ou seja, ele mostra que é essencial que um realizador entenda a história e o universo de cada filme. Seu domínio sobre essa questão fica muito claro quando ele pega uma franquia como Velozes e Furiosos, já assumida como um festival de exageros, e eleva tudo a uma nova potência. Os carros despencam do céu, usando para quedas e desafiando as leis da física em cenas tão ridiculamente criativas e irreais, que só ficam tão divertidas porque ele sabe exatamente o que está fazendo. Tudo filmado de forma a valorizar o espetáculo, com piruetas de câmera registrando a ação bem de perto. Esse espetáculo, além de ser uma exigência daquele universo particular, é o que o público desse tipo de filme também quer.

Em seus primeiros trabalhos, sempre deu preferência ao uso de efeitos práticos e maquiagem, ao invés da surra de computação gráfica que viria depois com Velozes e Aquaman. Principalmente por questões de orçamento. Mas, a cada sucesso, Wan conquistava brinquedos maiores. E, se existe uma coisa que James Wan sabe e gosta de fazer é brincar de fazer cinema. Lá em Invocação do Mal 2, por exemplo, ele já mostrava os sinais dessa vontade de brincar com o gênero. O filme, como falado anteriormente, se passa na Inglaterra e o diretor recorre a elementos da cultura e da típica comédia britânica para estabelecer o universo. Como na cena em que uma dupla de policiais investiga a casa, pois a família acredita que os fantasmas são, na verdade, ratos nas paredes. Quando dizem que não há ratos ali, uma cadeira começa a andar sozinha, de forma completamente cínica. Ela se afasta deles e volta para a mesa, enquanto todos se entreolham. Corta para um take dos policiais saindo da casa, da forma mais natural do mundo, dizendo que esse não é o tipo de serviço feito pela polícia, desejando sorte à família. São elementos que parecem corriqueiros, que parecem sem importância para a trama, mas que trazem uma genuína riqueza ao universo que passa na tela.

É claro que ainda há muito para falar sobre Wan, mas acredito que, por enquanto, seja o suficiente. No entanto, gostaria de fazer algumas "menções honrosas" a elementos que não poderiam ficar de fora: As marionetes bizarras, Billy The Puppet e a boneca Annabelle, que, ao lado do zootrópio do Homem Torto, remetem a aquele medo mais puro e infantil. Ou a cafonice assumida de Aquaman, com cenas que parecem saídas direto de um videogame de luta ou de um episódio do Bob Esponja. O tipo de coisa que só poderia render uma das coisas mais legais do cinema de super-heróis. Cafonice essa que já aparecia lá em Sobrenatural, com o demônio Lipstick-Face afiando suas garras ao som de Tiptoe Through the Tulips.

Se você chegou até aqui e nunca teve contato com a obra de James Wan, recomendo fortemente que o faça. Apenas elucidando, para o caso de toda minha tietagem durante o texto não ter deixado isso claro. Esse é um cineasta que te faz ter prazer em sentir medo. Com seu senso de humor perverso, ele te envolve nas histórias que conta sobre pesadelos suburbanos, homens que conversam com peixes e carros que caem do céu.

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