Rio de Janeiro

Diálogos

O Legado de Hamilton

Atualizado: 15 de Set de 2020

Por: Natália Seixas

12/07/2020


A minha primeira lembrança concreta de Hamilton é a de um gif, na minha feed do Tumblr, das personagens Angelica, Eliza e Peggy Schuyler fazendo o movimento emblemático da música The Schuyler Sisters em 2015. No mesmo ano que foi lançado na Broadway, Hamilton se tornou uma febre no Tumblr: todos os blogs que eu seguia postavam sobre, mídias de notícias constantemente atualizavam com fotos de diferentes celebridades indo prestigiar o musical. Enfim, Hamilton estava em todos os lugares que eu circulava online. Levou um certo tempo, mas eventualmente eu cedi a pressão do Tumblr e dei uma chance ao musical e minha reação foi só uma: woah!

De acordo com meu Tumblr, o primeiro post que efetivamente fiz sobre Hamilton foi no mesmo dia que escutei pela primeira vez o álbum Isso significa que, basicamente, eu tenho documentado todo meu processo de me apaixonar pelo musical ─ o que é extremamente útil agora que estou escrevendo esse texto. Eu posso acessar minha memórias afetivas e escrever sobre Hamilton na perspectiva de quando tudo começou e a de agora, quatro anos depois, num mundo completamente diferente de quando o musical foi lançado.

Para quem ainda está um pouco perdido pela razão de eu estar escrevendo sobre esse musical da Broadway: na última sexta-feira, 3 de julho, foi lançada a gravação ao vivo de Hamilton no formato de filme pela Disney+, a plataforma de streaming da Disney que ainda não tem data prevista para chegar ao Brasil. Por conta desse lançamento, Hamilton finalmente alcançou o grande público ─ não está mais restrito às elites que amam teatro, pessoas aficionadas por musicais da Broadway, à galera do Tumblr ─ e, por consequência, reavivou o interesse pelo musical e tudo que ele representa.

Reiterando o que falei no início, eu me tornei fã de Hamilton no mesmo ano que o musical estreou, então eu acompanhei a expansão da popularidade e relevância da obra criada por Lin-Manuel Miranda. Eu li dezenas de artigos sobre o impacto do musical, eu assisti várias entrevistas envolvendo o elenco e a equipe de produção, cheguei até mesmo a ver Hamilton’s America, o documentário da PBS sobre o musical e como Miranda se relaciona com a figura histórica Alexander Hamilton. Vocês já podem imaginar a grande bagagem de informações que tenho e esse artigo é minha tentativa de articular os aspectos mais importantes que sei em relação ao musical.

A história de Hamilton começou quando Miranda, durante suas férias, leu a biografia Alexander Hamilton escrita pelo historiador Ron Chernow. O livro retrata a vida de um dos fundadores dos Estados Unidos, que lutou na Revolução Americana e, após os Estados Unidos se tornarem independente, ocupou o cargo de secretário do Tesouro, estabelecendo a economia moderna norte-americana.

Ao ler a biografia de Hamilton, o que Miranda conseguiu perceber é que a sua história de vida é a narrativa quintessencial do imigrante. No momento em que Miranda se deu conta disso, a história de Hamilton refletiu sua vivência familiar, pois seu pai, ainda jovem, saiu de Porto Rico para tentar uma nova vida nos Estados Unidos. Logo, pensar em Hamilton e a sua construção é pensar na relação que Miranda estabeleceu com a vida da figura histórica a partir de suas experiências pessoais. Então, as escolhas de Miranda em relação ao musical foram baseadas no que mais ressoou para ele tanto no âmbito pessoal, de estabelecer os pontos de encontro entre sua vida com a da figura histórica, quanto no âmbito artístico, de escolher e adaptar as partes da vida de Hamilton que são compatíveis com um musical. Portanto, e isso é essencial de ressaltar aqui, o musical é apenas inspirado em eventos e personagens reais, não houve pretensão nenhuma em relatar fielmente a história real. Não se pode esquecer que, antes de qualquer coisa, Hamilton é e sempre será uma obra fictícia.


Tendo consciência disso, é fundamental pensar no efeito do musical Hamilton para a cultura e a sociedade ocidental. Primeiramente, o que distingue Hamilton de outras produções sobre o tema Revolução Americana e fundadores dos Estados Unidos é a retratação desses personagens históricos, obviamente brancos, por atores negros e latinos. Essa decisão, vale mencionar, foi completamente deliberada. Miranda sempre visa criar espaço para atores de cor com suas obras, exatamente por ele ter passado pela experiência de não ter lugar de relevância na maioria das produções da Broadway. A criação de Hamilton abriu o debate em relação à falta de representatividade dentro do teatro tanto para pessoas de cor quanto para mulheres. Na verdade, lá em 2015, Hamilton foi recebido com grande aclamação por ter gerado visibilidade para vozes que antes não tinham protagonismo algum.

Contudo, o cenário atual, especificamente nos Estados Unidos, está passando por um momento conturbado. Por conta das mobilizações em prol do movimento Black Lives Matter, a recepção do musical pelo grande público tomou um tom diferente quando comparado ao lançamento da peça em 2015.

Antes de tudo, tenho que admitir que Hamilton por si só é uma obra controversa, pois apesar de ser uma excepcional reformulação da narrativa de fundação dos Estados Unidos, paira sobre esta um pouco de saudosismo em relação ao sonho americano e às figuras históricas retratadas no musical. Sem dúvida, isso é resultado da própria experiência de vida do criador do musical, afinal não podemos esquecer o que eu mencionei anteriormente: a vida de Miranda representa, em vários aspectos, o princípio do sonho americano. Obviamente, as vivências de Miranda refletiu na concepção do musical. Então, a presença desse patriotismo saliente é até compreensível, pois Miranda teve uma trajetória de sucesso como filho de imigrante, exatamente o que o ideal americano prega.

A diferença da existência de Hamilton em 2015 e agora em 2020 é como a escritora e ativista negra norte-americana Tracy Clayton observou: é o mesmo conteúdo existindo em cenários políticos completamente distintos, ainda que tenha apenas quatro anos de diferença entre eles. Não estou dizendo que não existiram discussões quanto a esse caráter dubitável de Hamilton em 2015, contudo não chegaram ao ponto de ter a hashtag #CancelHamilton para “cancelar” Hamilton.

O argumento principal é o fato do musical ser sobre escravocratas e não lidar diretamente com a escravidão. Além disso, eles interpretam o musical como uma obra que retrata os Estados Unidos como um país bom e glorifica os fundadores do mesmo, utilizando pessoas de cor para os representar. Miranda, em resposta ao movimento online, se pronunciou sobre o assunto através de uma entrevista pelo talk show Fresh Air:

“[Escravidão] está em terceira posição no nosso musical. É um sistema em que todo o personagem no nosso musical foi conivente de uma forma ou de outra. (...) Hamilton ─ apesar de expressar ideias antiescravistas ─ permaneceu cúmplice do sistema. E, tirando o momento que repreende Jefferson por sua hipocrisia em relação à escravidão no Ato 2, realmente não faz nada mais que isso pelo resto do musical. E eu acho que é bem honesto… Ele não fez mais que isso depois dessa reprimenda. Nenhum deles fizeram algo. Nenhum deles fizeram o suficiente. E nós dizemos isso também nos momentos finais da música. Mas agora isso nos afeta diferentemente porque estamos tendo uma conversa sobre o assunto, estamos realmente considerando como desarraigar o pecado original [referindo-se à escravidão].”

Miranda, em seu Twitter pessoal, afirma que todas as críticas que Hamilton está recebendo são válidas, pois ele mesmo admite ter feito o melhor que pôde, ainda que não tenha conseguido incluir todas as falhas e complexidade das vidas dessas figuras históricas em duas horas e meia de musical. O que, honestamente, é o melhor posicionamento que Miranda poderia tomar nessas circunstâncias. Ele compreende que sua obra não está isenta de problemas, por mais transformadora que tenha sido. Poucos criadores na posição de Miranda assumiria que lacunas e defeitos existem em suas produções, principalmente uma como Hamilton que ganhou grandes prêmios como Pulitzer e Grammy Awards, além de levar para casa 11 troféus do Tony Award.

Refletindo sobre as críticas recebidas, penso que é pertinente relembrar ou, como parece ser o caso, explicitar que os personagens do musical foram construídos com base nas coisas que eles escreveram e não o que foi falado sobre eles por terceiros. Hamilton é, fundamentalmente, sobre o poder das palavras e o legado da escrita autoral. A última música de Hamilton elucida perfeitamente a intenção por trás do musical. Who Lives, Who Dies, Who Tells Your Story é, antes de mais nada, sobre como a História se faz ─ o que eu posso particularmente falar com certa autoridade por ser historiadora. A música dá reconhecimento ao esforço da esposa de Alexander Hamilton em preservar a memória dele através da organização de todo material que ele escreveu enquanto vivia, das causas que ela ajudou por conta do que ela sabia sobre Hamilton e suas posições políticas. A construção de memória se dá exatamente por esse tipo de processo que Eliza efetuou e, se temos uma biografia extensa sobre Hamilton hoje, é graças ao trabalho que Eliza fez no passado. Miranda soube trabalhar muito bem essa ligação do musical com a imagem que a História criou dos protagonistas da fundação dos Estados Unidos, sempre lembrando ao longo do musical que tudo isso que temos é um construto e que nunca teremos uma reestruturação fiel tanto aos eventos quanto às pessoas que os vivenciaram.

Eu com toda minha bagagem de feminista, historiadora, mulher negra e fã de cultura pop tenho o seguinte posicionamento: Hamilton pode, e deve, existir em duas verdades. A primeira é que é um trabalho genial em todos seus aspectos artísticos e que nunca haverá outro Hamilton ─ é único e marcou uma geração de forma visceral. A segunda é que há problemas na obra e estes devem ser reconhecidos e discutidos, não ignorados. O momento em que você simplesmente descarta uma produção cultural no lugar de lidar com os problemas que a compõem, você está impossibilitando a existência de discussões que impulsione mudanças sociais. Cancelar ao invés de educar só acumula problemas e não os resolve. É completamente possível de absolutamente amar uma produção artística e criticá-la por suas falhas. Posso usar o próprio musical para ilustrar do que estou falando.

Um aspecto que me incomoda em Hamilton é a subtrama de Angelica Schuyler ser romanticamente interessada no Alexander Hamilton. O meu problema com esse ponto em particular é que não existe evidência concreta alguma da criação de Miranda, enquanto há fortes indícios que Alexander Hamilton era envolvido romanticamente com seu melhor amigo, John Laurens. E quando falo de indícios eu não estou falando apenas de rumores da época, mas também de trechos de cartas escritas por Hamilton para Laurens com frases como “meu querido Laurens, seja pelo meu poder, por ações e não palavras, que eu te convença que te amo” e “todos nós amamos você sinceramente; porém eu tenho mais das enfermidades da natureza humana do que os outros e, eu suspeito, que excedi minha parcialidade por você”. Mas, como sempre, é melhor ter apagamentos queer para fazer a história mais palatável para o grande público do que reconhecer uma possibilidade bem mais real do que a escolha criativa de Miranda. É como uma amiga minha me disse uma vez: “Ah, Naty, aí você está querendo muito, né? O Lin já fez um musical sobre pessoas brancas usando pessoas de cor, enfiar gays no meio ia ser demais pro público aceitar.” E, obviamente, ela está completamente certa. Esse problema que tenho com a obra não me faz a amar menos, porém teria sido infinitamente melhor se incluíssem uma representatividade queer no musical ─ que refletiria o que existia na vida real. Ainda que historiadores se esforcem em eliminar identidades queer de toda a História, nós sempre existimos e também fazemos parte da História.

Enfim, para mim Hamilton permanece sendo o melhor musical já produzido pela Broadway, impecável nos aspectos artísticos mesmo que deixe a desejar em um nível político-social. Vale lembrar que Hamilton é uma obra de ficção e não uma obra pautada em veracidade histórica ─ que também é uma concepção possível de debate, mas não é o ponto desse texto. O que você deve levar disso tudo que eu falei aqui é: você não precisa odiar algo que seja problemático, o que você precisa ser é crítico e entender quais aspectos são ruins e não ter medo de reconhecer tais erros. Afinal, errar é humano e produção cultural é fruto de quem cria.

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