Rio de Janeiro

Diálogos

Nós Que Aqui Estamos

Por: Yan Alberto

07/08/2020


É muito difícil estabelecer certezas sobre onde começou a história do cinema. O que sabemos é que no dia 28 de dezembro de 1895, cerca de trinta pessoas tiveram o privilégio de assistir no salão indiano do Grand Café de Paris um trem chegando à estação Ciotat, no que ficaria conhecido como a primeira exibição cinematográfica comercial da história. O evento elevaria os irmãos Lumière e seu cinematógrafo ao status de inventores do cinema (pobre Léon Bouly). Mesmo que um mês antes (mais precisamente 1 mês e 27 dias) os irmãos Max e Emil Skladanowsky, da Alemanha, tenham exibido imagens em movimento a um público pagante com seu bioscópio.

Não importa. Há apenas uma verdade: o cinema nasceu com o documentário. Seja na França, Alemanha ou onde você preferir, cenas do cotidiano foram as primeiras a serem registradas e exibidas para o público. Trinta anos depois os filmes deram mais um passo, com a introdução da película sonora. Depois vieram as cores, os efeitos especiais e o 3D. O século XX surge como um momento de contrastes, onde, devido ao desenvolvimento artístico e tecnológico, a indústria cinematográfica se estabelece, enquanto o mundo se envolve em duas guerras mundiais e a violência se torna algo cada vez mais banal.

Por isso, hoje, no Dia do Documentário Brasileiro, escolhi lembrar um pouquinho de Nós Que Aqui Estamos por Vós Esperamos, filme de 1999 do diretor Marcelo Masagão, que se propõe a mostrar o século passado como ele realmente foi: um breve turbilhão.

"Memória do breve séc. XX".

Através de uma esperta montagem de sobreposição de fragmentos que captura a essência dessa era turbulenta, Masagão costura um verdadeiro mosaico sobre esse século que mudou o mundo. São reportagens de TV, filmes clássicos, fotos e arquivos, que criam narrativas sobre figuras famosas e desconhecidas, reais ou não. Sem uma concreta divisão entre os assuntos ou qualquer linearidade, o filme quer mostrar como o impacto da vida de cada indivíduo, por mais breve que seja, reflete na história como um todo. Dessa forma, ele fala muito sobre o que há em comum entre as pessoas, mesmo entre aqueles que vivem tão distantes. O confronto entre semelhanças e diferenças, que se confundem, e revelam a importância dada a cada indivíduo para a memória da humanidade.

Tudo isso guiado pela trilha composta pelo músico belga Wim Mertens, que dita o tom necessário e eleva a obra de um jeito muito especial. Seja abordando as mudanças trazidas pela industrialização, as ditaduras e revoluções, o avanço tecnológico e, obviamente, as guerras, as imagens falam por si só e não há necessidade de qualquer tipo de narração para legitimar os acontecimentos que passam na tela. Apenas a associação entre as ideias, imagem e música são o suficiente e isso potencializa a obra, dando margem para toda sua poesia audiovisual. Poesia essa que se manifesta nas imagens que a todo o tempo se confrontam, pontuando o quão contraditório é esse ser humano, fruto de uma era onde a vida e a morte passaram a ser algo tão trivial e sem importância. Onde a tecnologia mata tanto quanto é capaz de salvar.

"Os homens criam as ferramentas, as ferramentas recriam os homens".

É sobre responsabilidade.

Mesmo assim, a beleza sempre é capaz de florescer em meio ao caos. Por isso, bem como muitos outros antes de mim, me apego tanto à sequência de encontro entre o artista americano Fred Astaire e o jogador de futebol Mané Garrincha, que reforça mais uma vez essa ideia do confronto e das afinidades entre as pessoas através do tempo e espaço. Chega ser difícil explicar, mas as imagens de Garrincha e Astaire são intercaladas com a música, criando um verdadeiro balé de opostos. Nesse contraste, os dois se mostram tão parecidos.

O título do longa faz referência a uma frase encontrada na entrada de um cemitério localizado na cidade de Paraibuna, no interior de São Paulo, e é até lá que a cena final nos leva. O lugar em que todos irão se encontrar. Onde terminam todos os conflitos e fronteiras. Onde as classes e poder desabam. Um lugar comum.

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