Diálogos

Mostre-me Como Viver Rastejando na Minha Pele

Por: Yan Alberto

06/09/2020

"Meu Nome é Chester", disse Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, aos presentes no cemitério Hollywood Forever, no dia 26 de maio de 2017. "Tive o grande privilégio de ser amigo de Chris e convidado a ser membro de sua família". Seguido disso, ele cantou "Hallelujah", de Leonard Cohen. Era o funeral de Chris Cornell, vocalista do Soundgarden e Audioslave. Chris havia cometido suicídio no dia 18, em um quarto de hotel. Naquele dia, o vocal explosivo de Bennington não compareceu à reunião. Em seu lugar, uma voz frágil e melancólica.    

    Menos de dois meses depois, no dia 20 de julho, Chester foi encontrado morto, também vítima de suicídio, em uma residência privada, próxima de Los Angeles. O curioso é que, se estivesse vivo, naquele dia teria sido o aniversário de 53 anos de Chris Cornell.

    Além de figuras importantes para o gênero, os dois foram amigos íntimos em vida. Inclusive, Bennington era padrinho dos filhos de Cornell. Diante disso, muito se questionou sobre as razões, os porquês ou os sentimentos que levaram à duas situações tão parecidas. Falaram sobre depressão e dependência de álcool e drogas. De fato, ambos cantores sempre foram abertos sobre a luta contra o vício e a depressão. Chester, por exemplo, já havia tentado o suicídio algumas vezes. E mesmo que não fossem, basta depositar uma atenção extra nas letras de cada um para confirmar isso.

    É possível que a morte de Cornell tenha servido de gatilho para Bennington? Talvez. Mas não há como negar que foi mais um episódio cruel, num incêndio que já vinha queimando faz tempo.

    Uma vez, li um artigo sobre esse mesmo assunto, que falava sobre o que Chateaubriand chama de "mal du siècle", ou no bom português "Mal do Século". Eu imagino que você esteja, pelo menos, familiarizado com o termo. Trata-se de um sentimento de frustração com a vida moderna, de melancolia e tédio com a futilidade da existência, que se abateu aos jovens e esteve muito presente na literatura do final do século XIX. Esse vazio existencial seria uma sequela deixada pela ascensão do racionalismo iluminista na Europa, que criou uma mania de dizer que havia uma explicação lógica por trás de todos os fatos. Essa galera representada pelo senhor Espinosa e por Descartes sustentava o argumento de que a razão é tudo o que importa para se alcançar a verdade. Sinto muito, eles estavam errados. Chateaubriand descreve bem o sentimento da época e me parece muito mais "esclarecido" ao dizer que: “As ciências explicam tudo para a inteligência e nada para o coração”. Não se emprega apenas razão ou lógica a qualquer coisa, principalmente no que se refere a um ser tão inconstante quanto o humano. 

    A literatura gótica e o romantismo, com uma tendência ao mórbido e às figuras autodestrutivas podem ser um reflexo dessa melancolia coletiva. Baudelaire, Rimbaud e, meu favorito, John Clare, foram muito influenciados por esse sentimento, por exemplo. Mas, pode-se dizer que a obra mais significativa é Werther, de Goethe, por ter produzido algo chamado de "Efeito Werther". De fato, é assim que chamam o Mal do Século na Alemanha, que se caracteriza por uma onda de "suicídios imitados". O protagonista do livro de Goethe se mata após uma rejeição amorosa e muitos jovens da época copiaram o gesto.

    Se voltarmos um pouco até o final dos anos 80, a mesma melancolia e angústia pode ser encontrada na cena musical do que viria a se tornar o grunge. O movimento exibe temas muito ligados a um desencanto com o estado da sociedade, falando muito sobre alienação, abuso, isolamento social ou emocional, trauma psicológico ou desejo de liberdade. O Soudgarden, banda que tinha Chris Cornell como vocalista, é um dos precursores do gênero. As composições pesadas e o vocal rasgado não estão nem um pouco preocupados em disfarçar o sentimento de exaustão com o mundo ou a desesperança com o futuro. O caráter bucólico, sarcástico e, muitas vezes, lúgubre do grunge traça muitos paralelos com a galera ultra-romântica lá de trás. Muito do trabalho de Chris Cornell está relacionado a isso e, para não deixar mais dúvidas sobre, é só lembrar do Temple of The Dog. O supergrupo grunge foi formado por Chris em 1990, como um tributo à Andrew Wood, vocalista do Mother Love Bone (banda que viria a se tornar o Pearl Jam), que havia falecido naquele ano. Pode-se dizer que Wood faz parte do Efeito Werther que se repete nessa geração, mesmo que de forma inconsciente. O suicídio de Kurt Cobain e as mortes por overdose de Shannon Hoon, Layne Stanley, do próprio Andrew Wood, entre outros. Sejam artistas famosos ou não.

    Chester Bennington não tinha em Chris só um amigo, ele era em muitos aspectos um ídolo. Mesmo que o estilo do Linkin Park, que lançou sua primeira demo em 1999, não possa ser definido como grunge, é seguro afirmar que eles têm no Soudgarden uma grande inspiração. E todas as semelhanças que o grunge possui com o romantismo também se repetem aqui. Porém, eu não saberia dizer ao certo qual seria o mal do século de Cornell e Bennington. Talvez os efeitos das revoluções tecnológicas, muitas de suas letras me passam essa mensagem. 

    Uma vez que a velocidade de informação produzida é muito maior do que qualquer um é capaz de consumir, a tecnologia causa uma ansiedade tremenda, impossível de ser suprida. O século XX transformou demais o mundo e a maneira como as pessoas lidam com ele. O avanço tecnológico abriu muitas portas, mas, em muitos aspectos criou uma geração solitária. Agora mesmo, você encontra qualquer resposta pronta a dois cliques de distância, o que é, sem dúvida, sensacional. Mas as emoções de cada um, os sentimentos reais, não possuem respostas simples geradas por zeros e uns. Não há aplicativo que diga a quem está perdido dentro de si, quem ele é. Não existe Uber para matar a saudade. Não há rede social que simule uma realidade diferente, numa rotina entediante e repetitiva, com tantos compromissos, problemas a resolver e toda essa correria. Para isso, existe o toque, a pele, a voz, o sorriso. 

    E o ouvido. Escutar parece ter ficado cafona, quando a moda é a curtida. Tão cafona quanto essa frase que você acabou de ler.

    Não me entenda mal, não acredito que a razão seja inimiga do sentimento ou que a tecnologia seja o nosso maior inimigo. Mas, talvez, para essas pessoas o mundo estivesse silencioso demais, enquanto buscávamos infinitamente por respostas que nunca vamos encontrar sozinhos.

    Eu, particularmente, estou mais interessado em usar os nomes de Chris e Chester como uma lembrança para observar e não ignorar os sinais de que a sombra de um amigo esteja tomando conta dele. Pode ser mais difícil do que parece, eu já cometi esse erro e não gostaria de repeti-lo. Não vou me estender mais, descrevendo mortes ou qualquer coisa do gênero. Não se trata disso. Prefiro ficar com o que Chris Cornell certa vez disse para sua filha, Lily: "Pessoas estúpidas não têm ansiedade. Você se encontra com a sua ansiedade de forma honesta, e é algo com o que eu batalhei a minha vida toda. E mesmo que isso seja ruim, e pode parecer um peso enorme, você vai dominá-la e vai aprender como usá-la de formas que irão te ajudar e ajudar os outros".

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