Rio de Janeiro

Diálogos

I Have a Dream

Por Winnie Kássimo

28/08/2020


"Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos: que os homens são criados iguais. Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade."

O discurso de Martin Luther King naquele dia 28 de agosto criou uma onda de desejo por democracia racial que reverberou por todas as décadas seguintes. As 250.000 de pessoas ali presentes, vindas de todos os estados e de todas as maneiras possíveis (algumas a pé e outras pelas estradas) para marchar em Washington clamando por direitos iguais, empregos e o fim da segregação racial geraram uma cena poderosa o bastante para que os olhos do mundo se voltassem para os Estados Unidos. Em 1964 e 1965, a segregação entre pretos e brancos nos Estados Unidos foi oficialmente extinta.


No entanto, nesse mesmo discurso, o próprio Martin Luther King lembrava que em 100 anos desde que pretos não eram mais escravizados nos Estados Unidos, a igualdade racial com a qual ele sonhava estava longe de ser alcançada. E hoje, 57 anos após a Marcha de Washington, não é difícil perceber que ainda estamos muito, muito longe de alcançar o dia em que descendentes de pretos e brancos se confraternizarão como naquelas imagens bonitas do pós-Apocalipse em panfletos cristãos.


O discurso na Marcha sobre Washington ressoou em todo o mundo, portanto aqui no Brasil também teve seus efeitos, mas não foram tão calorosos como aparentemente foram nos Estados Unidos (digo aparentemente porque, claro, as coisas não são tão simples ̶ me lembrem depois de falar sobre Malcolm X). Aqui, não só se tinha espalhado a mentira muitíssimo bem contada de que racismo não existia no Brasil, como se tinha subvertido a narrativa da miscigenação, que passou a ser vista como algo positivo e que igualava a todos porque "todo brasileiro tem um pezinho na senzala" (eu sei que você já usou essa frase. Eu já usei também). O discurso de King, nesse contexto, tem o sabor de reforço de situação. O Brasil, inclusive, estaria em melhor situação que os Estados Unidos, já que, mesmo abolindo a escravidão mais tarde, trata todo o seu povo com igualdade. Nem existe racismo mais, que ideia ultrapassada!


Eu tenho uma visão sobre a história do mito da democracia racial (não é uma visão só minha), que é a seguinte: O racismo brasileiro acaba sendo mais cruel do que o estadunidense (com o qual é mais comparado) justamente pelo fato de que, aqui no Brasil, as linhas entre as identidades raciais foram propositadamente borradas para fins de extermínio. O que temos hoje é o uso dessa situação para manipular e perpetuar esse mesmo extermínio que nunca parou de acontecer. Então é difícil receber o discurso de Martin Luther King dentro da realidade brasileira com ouvidos descontaminados de colonização. O que a gente ouve aqui é "vamos só ser legais com a branquitude, assim vai dar tudo certo". Só que não dá. Na prática, a população preta continua morrendo e sendo oprimida, muitas vezes se surpreendendo ao sofre opressão, porque é assim que se descobre a não branquitude.


"Eu tenho um sonho". Com esse discurso, Martin Luther entrou para a história! Mas fico pensando se ele sabia que seu discurso seria cooptado pela branquitude para perpetuar a mesma desigualdade que ele combateu por toda a sua vida…


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