Diálogos

Conto: Aquilo Que Permanece

Por: Raquel Couto Mota

13/09/2020


Nossos pais sempre foram muito amigos e o destino quis que também fôssemos. Meu pai, meu Rei, frequentemente se gabava e brindava aos feitos de Stein, capitão da guarda e lendário espadachim que derrubava até mesmo reis em torneios. Até considerou fazer do primogênito de Stein, Uffe, o herdeiro ao trono depois que minha mãe abortou pela terceira vez em cinco anos. Lembro-me do exato momento em que descobrimos, você apareceu na minha odiosa aula de tecelagem correndo, não se intimidou diante da indignação avassaladora da senhora Astrid, nem respondeu ao seu ríspido “Lembre-se de seus modos, menina!”, apenas abaixou a cabeça e disse que o Rei mandara me chamar. Já perdi a conta de quantas vezes você usou essa desculpa. Cheguei a ter medo que Astrid não acreditaria mais nela quando você a usou pela quarta vez na mesma semana, mas quem poderia contestar o Rei?

Você pegou na minha mão e juntas subimos as escadas, abafando o riso com a mão livre. Eu os ouvi conversando do lado de fora, orelhas coladas na porta, enquanto você, deitada no chão, tentava ver o que estava acontecendo por meio de uma pequena fresta na madeira. Não era a primeira vez que fazíamos tal coisa, nem seria a última. Toda vez que descobríamos algo proibido aos nossos ouvidos, corríamos para nosso esconderijo secreto, seu quarto, e registrávamos tudo num pequeno livro guardado atrás daquela pedra solta na parede.

“Siv! Se Uffe for feito Rei, seremos irmãs!” Exclamei, transbordando de alegria, assim que entramos em seu quarto. Gostava do seu irmão mais velho, ele nos trazia presentes sempre que voltava de suas missões como cavaleiro.

Você me abraçou e juntas dançamos até sermos chamadas para o jantar. Descemos de mãos dadas, com sorrisos estampados nos rostos. Éramos jovens e meu amor por você era puro, ingênuo, bonito.

Mas Uffe nunca foi feito herdeiro. No inverno daquele ano minha mãe engravidou novamente. Lembro-me claramente do momento que ela me contou sobre meu irmãozinho, porque foi a última vez que a vi. Ela foi confinada ao seu quarto logo depois. Ninguém a via exceto suas damas de companhia e curandeiras, que entravam e saíam correndo, carregando cestas cheias de ervas e baldes de água quente. Meu irmão Unn chegou apressado, mirrado, fraco, e minha mãe foi novamente confinada, agora à terra e aos deuses. Nós a enterramos em seu lugar preferido, perto do lago, no jardim onde ela costumava sentar e contar para nós histórias de heróis de outrora.

“Algum dia você vai fazer um marido muito feliz, Runa.” Ela me dizia, enquanto trançava meu cabelo, dando-me esperanças. Mesmo que eu nunca aprendesse a tecer tão bem quanto Astrid, ou como minha mãe, que teceu a bandeira que o pai levou nas batalhas, eu ainda assim conseguiria me casar.

Unn era uma criança fraca, ficava doente todo inverno e meu pai esperava que eu me trancasse com ele para segurar-lhe a mão, beijar-lhe a testa e entretê-lo com música e histórias, mas eu não podia. Não conseguia amar o assassino de minha mãe. Mas também não podia contar a ninguém o quanto eu o odiava, só a você, minha amiga, minha confidente. Você nunca me julgou ou reprimiu. Você sentava-se a meu lado e me deixava chorar de ódio, saudades e desespero. Você me abraçava e sussurrava minhas canções favoritas no meu ouvido.

Sua voz sempre foi melhor do que a minha. Você era mais bonita também e não demorou para que percebessem. Os pedidos começaram quando fizemos treze anos. Homens desejavam-me pela minha posição, pelo poder de meu pai e pelo título que ganhariam, mas eram os seus olhos de mel, seus cachos volumosos e macios, seus lábios rosados perfeitamente desenhados e sua pele morena que inspiravam declarações e ofertas de homens de diversos títulos. Meu cabelo era ralo, de um cobre escuro que não brilhava sob a luz do sol como o da minha mãe. Eu era pálida demais, e tinha o rosto, costas e membros marcados por sardas que insistiam em permanecer, não importando o quanto eu as esfregasse durante o banho. Mas você, Siv, você me dizia que eu era linda, você segurava meu rosto entre as mãos e fazia com que eu me sentisse linda.

Uma vez sonhei que eu não era eu, mas sim um guerreiro destemido que cruzava nosso reino de um ponto a outro, lutava com dragões, enfrentava piratas só para lhe trazer barris cheios de ouro. Você me aceitava como noivo, casávamos no dia seguinte e éramos felizes. Mas quando acordei, voltei a mim e senti-me morrer um pouco. Sou uma mulher e meu destino é outro; fazer um marido feliz. Não preciso ser feliz para isso.

Chorei o dia inteiro e como não respondia aos apelos de meu pai, ele mandou chamar as curandeiras para tratar-me. Fiquei de cama por uma semana, afastada de todos e, quando voltei a receber visitas, você foi a primeira. Você estava sorrindo e por um instante tive medo de você ter aceitado algum de seus pretendentes sem me consultar, de você estar noiva e apaixonada, pronta para me deixar, mas você pulou na cama, deitando-se ao meu lado, e disse:

“Runa, você melhorou! Estava tão preocupada que quase não dormi ou comi!”

Conversamos a noite inteira e só quando o sol raiou é que me enchi de coragem para perguntar-lhe sobre os seus pretendentes.

“Papai disse que posso escolher um marido e não quero nenhum. Não agora, pelo menos. Gostaria de ficar ao seu lado, se me quiser.”

“Eu a teria para sempre.” Meus olhos se encheram de lágrimas quando respondi, mas não chorei. Ainda éramos jovens e meu amor podia ser confundido por amizade, respeito, admiração.

Perdi meu pai em cinco verões, e meu lar em nove. Unn já era um rapaz e, com a ajuda de seus conselheiros me encontrou um marido. O Rei Trygve do reino de Tyr era um excelente aliado, dono de muitas terras e respeitado por seus vassalos, um guerreiro nato, além de trinta anos mais velho que eu. Os conselheiros disseram que eu estava na idade fértil e que me casar o mais rápido possível era imperativo, mas sei que não foi por isso que meu irmão o fez. Ele me vendeu para um velho porque ele me odiava de volta, porque casar-me significava livrar-se de mim. Não o culpo. Não poderia. Fui eu quem começou com o ódio.

Você chorou no meu casamento e chorou ainda mais depois, quando me abraçou e implorou-me por perdão. Seu pai estava doente e você não poderia abandoná-lo para se juntar a minha corte, como havia prometido. Nunca na minha vida quis tanto algo quanto beijar-lhe nesse momento. Quis tomar seu rosto para mim e beijar-lhe cada centímetro, confortar-lhe com carinhos, secar suas lágrimas, fazer-lhe sorrir, mas não pude. Não pude porque já não éramos tão jovens e meu amor por você estava perdido.

A viagem até o reino de Tyr foi longa e minha primeira noite como rainha doeu. Trygve beijou-me as lágrimas, tomando-me em seus braços e disse que eu era linda. Não me sentia linda. Trygve tinha dois filhos de um casamento prévio, dois homens feitos, já casados, que visitavam-nos frequentemente; um de vinte e cinco e outro de vinte e três anos, que me chamavam de mãe. Sentia-me velha. Criados e damas de companhia me seguiam para todo lugar, completamente dispostos a me ajudar a tecer, cozinhar e a cuidar do pequeno jardim que construí em meu novo lar. Sentia-me inútil.

A ameaça de guerra com as Valquírias do norte era iminente, mas os conselhos de uma mulher não eram bem-vindos na mesa de jantar e eu era punida cada vez que tentava. Os dias se misturavam, afinal eu não tinha muitas obrigações como esposa a não ser deitar-me e esperar que ele acabasse. Não sentia mais dor, estava entorpecida, até que um dia toda a dor que eu não senti durante aquele ano me atingiu como uma facada, de uma só vez. Desmaiei nos braços de meu filho adotivo.

Acordei com Trygve gritando que a culpa era minha. Chamou-me de bruxa e agarrou-me os pulsos com tanta força que deixou marcas. Chorei e implorei que me contasse o que havia acontecido, o que eu havia feito de tão horrível para ser acusada de tal heresia. Jamais trairia meus deuses, ou venderia a alma em troca de magia traiçoeira como as hereges que meu pai expulsou do reino anos atrás e que agora conluiem com as Valquírias, dando asas a seus cavalos. Mas Trygve, que ganhara sua reputação por ser impiedoso nos campos de batalha, simplesmente virou-me as costas e partiu para comandar seu exército. Apenas depois é que descobri que abortara o filho que nem sabia que carregava. Chorei a morte de meu filho. Chorei por ser fraca, e porque já estava cansada de tanto chorar. Queria ser como as Valquírias, do reino do norte, que tomaram as espadas dos maridos e dos pais para reinvidicarem suas terras. Chorei ao lembrar-me das palavras de minha mãe, de sua profecia que agora mais parecia uma maldição. Não queria fazer meu marido feliz, não queria lhe dar nenhum filho. Queria que ele morresse nessa guerra. Queria ter a força e coragem para matá-lo eu mesma.

Você chegou uma semana depois, quase dois verões desde que nos vimos pela última vez, trazendo notícias da morte de seu pai, mas também trazendo nosso antigo livro de segredos. Passamos a noite conversando e eu me deliciava a cada palavra escrita, perdendo-me nas memórias dessa criança que não poderia ter sido eu; a pessoa que escreveu esse livro era ingênua, confiante, com o coração repleto de sonhos e canções. Meu coração estava apertado porque eu mudei, tudo mudou, tudo menos uma coisa.

“Por favor, fique.” As palavras saíram antes que eu pudesse me convencer a não dizê-las, antes que eu pudesse enterrá-las em um canto escuro da minha mente, junto com todas as outras coisas que nunca poderia dizer-lhe. “Fica comigo, Siv.”

Por alguns segundos intermináveis, você não me respondeu, baixando seus olhos para o livro no meu colo. Engoli em seco e, aterrorizada que você estivesse se preparando para me negar, abri a boca para minimizar o desespero do meu pedido. Mas, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, você entrelaçou seus dedos com os meus e, com a outra mão, virou as páginas do nosso livro de segredos até chegar na última página, até chegar numa página que estava vazia da última vez que eu peguei no livro, mas que agora continha três palavras. “Eu te amo.” Eu as li em voz alta. “Eu te amo.” Repeti, porque o seu segredo era o meu segredo, Siv, e eu estava cansada de guarda-lo.

Você se inclinou para a frente até nossos lábios se encontraram. “Ficarei. Se você me quiser.” Sua voz, suas mãos e seu beijo eram gentis, e dessa vez eu não estava sonhando.

“Sempre.” E lhe beijei de volta.


Quando nos separamos o suficiente para respirar, percebi que estávamos as duas chorando, mas também estávamos rindo. Não éramos mais jovens, mas meu amor era correspondido. Siv, minha heroína, minha Valquíria, minha. Seríamos fortes e desafiaríamos o mundo juntas, sem espadas, sem cavalos alados, aqui de dentro desse castelo. Desafiaríamos tudo e todos com o nosso amor, com a nossa felicidade.

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