Diálogos

Confidências Mineiras

Por: Marise Lourenço

17/08/2020

Segunda, 17 de agosto de 2020. Trinta e três anos da morte de Drummond. Sempre achei um pouco estranho contabilizar morte, mas no caso em questão me parece mais eternizar uma figura que, ao morrer, não deixa de existir, apenas demarca uma espécie de legado. Ou, como eu sempre digo, escritores nunca morrem de fato.


CDA (na sigla que acho bacana usar) morreu em 1987. Só depois de 7 anos eu nasci, ali no mesmo estado, Minas Gerais, ainda que não na mesma cidade, já seria coincidência demais. Eu gosto de me vangloriar por sermos mineiros, o que sempre fez muito sentido para mim, já que também me orgulho de, na minha experiência leitora, ter a presença de Drummond em meus primeiros relatos e tentativas de leitura.


Fui uma criança curiosa e agitada. Logo que aprendi a ler queria juntar as letras de tudo ao meu redor e assim construir um mundo novo na minha cabeça por meio das palavras. Criança falante; agora também podia ler outros falantes. CDA era um deles, num livrinho de capa rosa, numa dessas antologias que não recordo bem qual edição. Peguei na estante de casa e tentei significar as letras daquela capa rosa – cor que adorava – em minha cabeça ainda muito falante e pouco leitora, pouco ouvinte. Entendi quase nada, mas fiquei curiosa com uma palavra ou outra. Li um de seus poemas eróticos pela primeira vez e questionei significados à minha mãe, que muito desconcertada disse que não era livro pra minha idade. Me deu gibis. Ela não estava errada.


Tracei o caminho como leitora por outras vielas e retornei à Drummond num livro didático, não lembro com que idade. Gostei. Recolhi algumas frases e poemas daquele livreto rosa, que tinha algumas interferências de rabiscos meus de quando era criança e que agora também estava bastante carcomido pela interferência do tempo, e com esses excertos preenchia minhas agendas, minhas paredes. Eu era adolescente e me apropriei das palavras e das fotos enigmáticas do autor de um jeito meio fã.


Em 2012 deixei esse espírito tiete, suas frases soltas e o livreto na minha cidade natal e vim para o Rio de Janeiro tentar vestibular. Vida “adulta”, muitas mudanças no meu jeito de me relacionar com o mundo, com aquilo que eu gostava. Para ser sincera, eu não sabia mais do que gostava, o que realmente se parecia comigo, quais as palavras que realmente me tocavam; eu só sabia que guardava em mim inúmeros sentimentos que eu não entendia. Uns chamam de crise existencial, mas para aquele momento de passagem em minha vida era como se eu estivesse em um limbo à procura de mim mesma.


Em 2013, já na faculdade, vivia de idas e vindas à Minas para visitar minha família que ainda morava lá. Numa dessas viagens minha mãe comentou que a vizinha era formada em Letras e tinha me presenteado com alguns livros ao saber que eu tinha passado para o mesmo curso. Naquela pilha eu reencontrei Drummond num livro de capa dura, Antologia Poética, lançado pela Editora Abril, que eu escolhi entre os outros para enfiar na mala de volta ao Rio.


Já em terras fluminenses, confesso que não toquei no livro de pronto. Li um romance que tinha trazido junto. Eu tinha 19 anos, o aperto no peito e o limbo só aumentavam. Sempre sentia saudades de casa ao retornar ao Rio. Uma sensação saudosa que nada fazia passar. Eu sentia falta do vento fresco, do céu cheio de estrelas. Abri o livro numa quente noite carioca, esperando encontrar lá algo que preenchesse essa saudade, minha adolescência, algo do que gostar, uma Minas Gerais como eu costumava me lembrar ou uma forma de entender o que sentia. Em minha procura solitária, achei um poema chamado “A bruxa”.


Lá estava um mineiro perdido e sozinho “nessa cidade do Rio”. E folheando o restante de sua antologia eu encontrei confissões e confidências ~exalando-se de um homem~ que clamava a um espírito mineiro numa “Prece de mineiro no Rio”, que também sentia falta da brisa de Minas, e, mais do que isso, encontrei alguém com quem eu poderia me comunicar, um confidente onipresente a quem eu poderia recorrer sempre que quisesse me perder também, mas encontrar nas palavras um lar.


Quando digo que escritores nunca morrem de fato é por isso; é porque eles permanecem vivos em nós, no que sentimos ao lê-los, ao compreendermos ou não compreendermos absolutamente nada em suas palavras (como por vezes, mesmo formada em Letras, acontece quando leio Drummond), mas aprendermos que viver é buscar. A vida, para alguns de nós, é um limbo. Mas um limbo pode ser habitado quando se tem a companhia de outra pessoa que soube fazer de seu sentimento do mundo e do incômodo de se estar perdido um modo do outro se encontrar.

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