Diálogos

Clarice: O A(Perto) Do Meu Coração Selvagem

Por: Magu Cintra Lopes

Data: 20/06/2020



Clarice não chegou para mim como chega para a maioria das pessoas. Não desembarcou de uma aula de Literatura obrigatória ou de uma imposição familiar. Nunca ouvi de ninguém: Leia Clarice para ser culto. No fundo, acho que tudo isso permitiu que eu tivesse Clarice como uma pessoa humana. Fantasma, mas de carne e osso.

Conheci Clarice quando uma professora da minha escola pediu uma biografia dela. Não era trabalho. Ela precisava para alguma aula 一 eu acho 一 e me pediu. Como eu gostava de escrever, aceitei. Não valia ponto nem nada. E nada era também o que eu conhecia de Clarice. Mesmo assim, no dia em que aceitei, fiz ares de que era íntimo 一 como faz a maioria das pessoas que vêem em Clarice o que ela não é.

Como bom geração Y/Z, desembarquei em muitos sites. Garimpei entre muitas fotos em preto e branco com cigarros, sombras e cabelos escovados. Por sorte 一 e já explicou qual foi a sorte 一 encontrei uma fotobiografia narrando sua história. Isso fez com que eu tivesse, na minha cabeça, uma imagem bem diferente da lugubremente aterradora que hoje se espalha com frases que não foram ditas por ela 一 quem não gosta de um meme?

Pela fotobiografia bem detalhada, eu conheci uma Clarice muito diferente da que criaram sobre os seus livros. Pelo menos diferente daquilo que constituía um senso comum elitista-estético-limitado. Clarice sorria nas fotos, na praia, com os filhos, com Ulisses 一 que agora faz eternamente companhia à ela no Leme. Eu conheci o humano em Clarice antes de conhecer os humanos que saiam dela.

Eu entendo que, talvez, meu texto desagrade a quem concebe produção literária como uma névoa secreta totalmente dissociada de quem a produz. Não sei cuspir saliva sem meu DNA e não acredito que nenhum outro também consiga. Curiosamente a maior parte das pessoas que concebem a Literatura como algo totalmente alheio a seus produtores são as que, em algum momento, não sabe lidar com os equívocos que qualquer arte produz… ou, no mínimo, fazem análises superficiais ou elitistas-estético-limitadas.

Uma vez ouvi alguém dizer que a Clarice era da terceira fase modernista e, por isso, não se preocupava tanto em construir um fio narrativo que abordasse aquilo que é social. E eu entendo que, para a maioria das pessoas, seja isso mesmo. Clarice só falou sobre os labirintos da mente, os desejos, as vontades. Curiosamente as pessoas esquecem que todos os nossos desejos, vontades e labirintos vêm das nossas relações. Clarice gostava desse conflito. Da guerra interna provocada pela refração daquilo que vem de fora. Das muitas coisas que vêm de fora.

Vejo Clarice em muitas coisas. Não me ajudou a me entender 一 somos muito diferentes 一 mas definitivamente me fez olhar para muitas pessoas com um olhar diferente. Acho que por isso me irrito tanto quando falam que Clarice é uma coisa só 一 fechada e inalcançável. Clarice é muitas coisas dentro e fora de mim.

Gosto muito de Felicidade Clandestina. Acho que sempre me senti assim com um texto de Clarice. Amando-o secretamente. Muitas vezes fui desencorajado a entender Clarice, mas hoje acho que tenho coragem de entender a relação que estabeleci com ela. Enquanto muita gente ao meu redor citava Freud para explicar aquela menininha de Recife no conto, eu lia e repetia na minha cabeça:

Tudo bem Clarice. Eu também fico muito feliz quando ganho um livro que quero muito...

Eu te entendo.

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