Rio de Janeiro

Diálogos

Black. Mas é King, mesmo?

Agora já dá pra dizer que assisti o álbum visual da Beyoncé no Disney+ esses dias, porque a gente até assiste coisas de modos alternativos, mas a gente também evita o processinho. Entre os fãs brasileiros, as opiniões foram bastante divididas em relação ao que se pode ver do filme. Houve todo tipo de críticas, algumas muito bem embasadas, outras absolutamente fora do tom, mas todas seguiam mais ou menos a mesma linha: Black is King não exatamente nos representa e dona Beyoncé só está tentand

o ganhar ainda mais dinheiro com a estética negra. Daí eu resolvi vir conversar um pouco sobre isso, porque eu quero trazer o meu olhar de mulher preta em diáspora (mas também brasileira) sobre a obra.


O negócio é que a população preta em no mundo todo sofre de um auto-ódio e uma desorientação terríveis! E disso resulta um tipo de baixa-autoestima que só o tráfico humano e 400 anos de sistemas racistas são capazes de produzir. O que Beyoncé fez, com Black is King, foi voltar o olhar preto para si mesmo, promovendo que ele enxergue a sua própria beleza e importância. Um ato político, sim, mas não inclinado necessariamente para políticas específicas. Como tudo que fazemos é político (sim, meu bem, TUDO. Respira), esse álbum visual, feito do jeito que foi, não poderia estar desvinculado da visão da autora. E Beyoncé é uma mulher preta em Diáspora, que sofreu racismo durante toda a sua vida, mas também é uma mulher estadunidense. Por mais que ela faça uma obra inteira tentando desmontar o que o imperialismo fez conosco enquanto povo, ela foi criada justamente no país que hoje se mostra como símbolo máximo desse mesmo imperialismo (Não é estranha, embora seja muito incômoda, aquela bandeira dos Estados Unidos em Already. As cores apagadas ressignificam o sentido de alguma forma, mas só para o povo estadunidense, mesmo, ninguém mais se reconhece nesse detalhe).


Você, pessoa preta fã de cinema, que assistiu todos os filmes do MCU, lembra da sensação de ver Pantera Negra no cinema? Lembra da emoção que foi ter um elenco majoritariamente preto, lembra de Wakanda? Esse é um trabalho que pra mim ressoa de forma muito parecida com Black is King, justamente porque os objetivos dos autores (não da Disney, nunca da Disney, Rato maldito) são os mesmos: restabelecer e reforçar a autoestima da população preta utilizando narrativas que não são necessariamente africanas. Sim, porque assim como o personagem Pantera Negra e todo o seu universo foi criado por Stan Lee, um homem branco, O Rei Leão (narrativa que baseou o álbum visual) é uma releitura de Hamlet, obra de William Shakespeare. Nenhum dos dois filmes (o de Ryan Coogler ou o de Beyoncé) é baseado em contos africanos para contar a história o que, na verdade, tem um motivo muito simples e eloquente: um conto tradicional africano não necessariamente falaria com britânicos ganeses, ou portugueses guineenses, ou estadunidenses nigerianos. Por mais que preservemos a nossa identidade como africanos e respeitemos as nossas tradições, nossa mente (inclusive a da própria Beyoncé) é ocidentalizada demais para se comunicar de forma puramente africana[1]. Um exemplo de como essa comunicação pode travar, mesmo sendo feita como foi, é o fato de o álbum visual se chamar Black is King. A ideia de reinado aqui não se trata de uma história sobre monarquia à moda ocidental, embora seja baseada em O Rei Leão. Nas próprias letras das músicas do The Gift (álbum de estúdio que baseou o filme) fica perceptível que esse reinado do qual ela fala tem outro sentido, o de reinar sobre si mesmo acima de tudo.


Trazendo todos esses elementos, Black is King ainda se utiliza de uma estética pesadamente africana, com elementos carregados de significado dessa realeza africana de diversas partes do continente. Beyoncé poderia ter ficado no espaço confortável de usar a narrativa e estética egípcia conseguindo resultados maravilhosos, mas não teria gerado metade da identificação que gerou entre os filhos da Diáspora. O foco na África Ocidental não poderia ter sido mais acertado, não só porque de lá saiu a maior parte de pessoas pretas traficadas para o Ocidente, mas também porque é uma parte do mundo para a qual pouco se olha em termos artísticos.


Então a verdade é que Black is King não necessariamente nos representa mesmo! A obra não é perfeita, senti falta de representatividade lgbtqia+, por exemplo. E é importante demais que o povo africano também se veja como diverso nesse sentido, porque a lgbtqfobia dentro do povo preto é extremamente cruel. O caso é que nada tem o poder de nos representar completamente, no máximo essa representação vai ser boa ou ruim. E, pra mim, foi maravilhosa! Entendo que a razão pela qual os fãs brasileiros acabam se sentindo tão pouco contemplados [2], no geral, passa muito pelo fato de que a crueldade racial cometida no Brasil tem uma marca toda especial. A mentira da igualdade racial e da miscigenação que aconteceu "naturalmente" por aqui funcionou tão bem que boa parte de nós sequer sabe que é preta. A comunicação com a negritude brasileira precisa de mais uma camada de especificidade para acontecer e, mesmo assim, não acontece de forma completa. Mesmo assim, esse laço forte que conecta todos os pretos no mundo todo à nossa raiz é forte e fala muito, muito alto. Através dele, assim como em 1994 nos identificamos com O Rei Leão e em 2018 fizemos o mesmo com Pantera Negra, podemos fazer o mesmo agora com Black is King.


É isto, meus amores. Beyoncé não é e nunca foi um ícone comunista, nem você tem que ser. Só saiba bem quem você é, Reine sobre si, e tenha consciência de que o capitalismo vem tentando acabar com tudo o que você é desde seu advento. E chore bem muito vendo Black is King, porque é lindo mesmo.




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[1] Recomendo muito o vídeo de Leo Hwan sobre como a animação de Mulan se comunica com asiáticos americanos: https://youtu.be/h7p49d0CZFo


[2] Maristela Rosa, no Papo de Preta, fez um vídeo maravilhoso analisando Black is King, também recomendo demais: https://youtu.be/rmWpiHppcXk

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