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Diálogos

Arte e Fandom: Arrogância e Misoginia Andando de Mãos Dadas

Atualizado: 15 de Set de 2020

Por: Natália Seixas

13/07/2020


Para celebrar o Dia Nacional das Artes, que aconteceu essa semana no dia 12 de Agosto, o post de hoje da série Acafan será uma reflexão sobre arte e fandom, especificamente o olhar de inferioridade e desprezo em relação às produções artísticas geradas pelo Fandom [1].

A primeira coisa que se deve reconhecer é que a sociedade aceita um determinado tipo de fã/fandom e, obviamente, o modelo aceitável é o masculino. O fandom “masculino” segue um modelo aquisitivo e curador, ou seja, o ser fã nessa esfera significa armazenar e organizar conhecimentos do objeto de afeição e colecionar merchandise.

O melhor exemplo para ilustrar o que estou falando é o fã de futebol. Eles cospem curiosidades e informações obscuras sobre seu time favorito, colecionam uma variedade de coisas com o emblema do time, vão a todos os jogos e, se eles têm uma vida financeira estável, eles viajam apenas para ver o jogo ao vivo. E esse tipo de fã é aceito pela sociedade; ele é classificado como uma pessoa passional que pode exagerar às vezes, mas quem nunca passou um pouco dos “limites”, não é mesmo?


E então, você tem fã/fandom transformativo, que é o codificado como espaço feminino e queer. O fandom “feminino” segue o modelo criativo, ou seja, o ser fã significa escrever fanfiction, desenhar fanart, criar gifs e posters, fazer cosplay ou apenas consumir essas produções citadas [2]. Esse fandom transformativo é o que a sociedade despreza, é o que se torna alvo de deboche e escárnio, que é considerado desleal e indecente. Tudo que é gerado pelo fandom transformativo, que rejeita ou se reapropria da produção original, é descartado e desconsiderado e esta atitude está intrinsecamente ligada à misoginia e a homofobia, além da arrogância, é claro.

Não se leva Fandom a sério porque é majoritariamente um espaço dominado por mulheres e/ou queers. Nós somos os esquisitos, que perdemos tempo e gastamos o nosso talento produzindo arte de algo que não é nosso e não poderemos lucrar. Porém, o cara que faz uma arte diferente do urubu do Flamengo para pôr num dos cartazes que eles levam para as arquibancadas é inspirador porque ele está mostrando o quanto ele é apaixonado pelo time e isso é revigorante em um mundo tão apático. No final das contas, gênero e, de certa forma, sexualidade, é o que norteia e separa esses dois tipos de fãs e fandoms. Não estou dizendo que o fandom curador não sofre discriminação, mas ele é naturalizado de uma forma que o fandom transformativo não é e isso é bem evidente.

A arrogância em relação às produções artísticas do Fandom está, até certo ponto, atrelada à questão de gênero também porque os padrões que desqualificam a validade dessas criações foram elaborados, na maioria das vezes, por homens brancos, heterossexuais e cisgêneros. Na sociedade dominante, o que se qualifica como bom é o que reproduz esses padrões. Logo, a produção de algo, por mulheres e queers quando se apropriam de uma obra, que não se alinha a um material de “boa” qualidade é descartável e inútil. A maior parte das vezes, essas pessoas nunca nem entraram em contato com obras de fãs num contexto que possibilite realmente formar uma opinião esclarecida. Eles vêem uma ou três produções e tomam elas como verdades universais do Fandom, construindo uma visão rasa e extremamente preconceituosa.

Pior ainda são as pessoas que lidam e estudam produções tidas como marginais dentro do viés de literatura tradicional e que também tem a mesma atitude. Não pense que a coleguinha que estuda Carolina Maria de Jesus não julgará fanfiction porque ela provavelmente o fará também. Geralmente, é a pessoa que te pergunta quando você vai começar a escrever de verdade ─ como se fanfiction fosse uma espécie de período de alfabetização que antecede uma produção literária “real”. O mais triste é que são pessoas que se pensam esclarecidas e não tem ideia de que estão reproduzindo um discurso embebido em misoginia e arrogância; ou talvez tenham e só se importam quando lhes convém.

Eu não estou aqui para tentar convencer ninguém que produções artísticas geradas pelo Fandom é arte. Prefiro lançar a seguinte reflexão:

De acordo com o Dicionário Online de Português, uma das definições de arte é a de “criatividade humana que, sem intenções práticas, representa as experiências individuais ou coletivas, por meio de uma interpretação ou impressão sensorial, emocional, afetiva, estética etc.; o resultado dessa criatividade: belas-artes; obras de arte”.

Como o que Fandom produz não pode ser arte de verdade quando, por definição, arte é uma expressão criativa de uma interpretação ou impressão emocional que representa experiências individuais e/ou coletivas? O que o Fandom faz não é simplesmente transformar o impacto emocional que uma obra lhe causou em uma representação concreta, que pode ser uma história, um desenho, uma pintura, uma escultura, uma música, entre tantas outras coisas? E essas produções não seriam a máxima da arte, pois elas são feitas sem pretensões pelos criadores, já que não há como lucrar ou ser reconhecido por parte do resto da sociedade dominante ─ é simplesmente fazer pela satisfação de fazer e extravasar sentimentos?

Eu termino esse texto com uma citação do Prof. Dr. Henry Jenkins em seu livro Textual Poachers, que explica um pouco dessa essa rejeição quase universal por criações do Fandom:

“A concepção estereotipada do fã, embora limitada em base factual, equivale a uma projeção das ansiedades atreladas à violação das hierarquias dominantes culturais. As transgressões dos fãs em relação a preferência burguesa e a ruptura com as hierarquias dominantes culturais assegura que suas preferências são percebidas como anormais e ameaçadoras por aqueles que têm interesse em manter esses padrões (até mesmo pessoas compartilham preferências similares, mas as expressam de forma fundamentalmente diferente).”

[1] Quando eu usar Fandom, com f maiúsculo, entenda que é para representar a comunidade de pessoas que participam de fandom e não a um fandom em particular. É uma separação pedagógica para diferenciar as pessoas que ativamente fazem parte de fandom dos outros que são apenas espectadores/leitores casuais e/ou que não interagem com a comunidade de fãs.

[2] Não estou dizendo que o fandom transformativo não coleciona merchandise ou não se importa com conhecimentos do objeto do qual elas são fãs, mas não é o que conduz a experiência de ser fã nesses espaços.

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