Rio de Janeiro

Diálogos

ACAFÃ: Pesquisa Acadêmica em Tempos de Pandemia

Atualizado: 15 de Set de 2020

Por: Natália Seixas

25/08/2020



O texto Acafan dessa semana será um pouco diferente. Não vou discorrer sobre algum assunto relacionado a fandom ou reflexões sobre artigos acadêmicos que li. Hoje será sobre a minha relação com a pesquisa nesse momento de quarentena.Um desabafo, na verdade.


Esse ano eu comecei cheia de planos, não vou negar. A primeira semana de março então? Nossa, eu estava a todo vapor! Eu finalmente estava de volta a faculdade depois de três meses inteiros em casa ─ sim, eu sou uma dessas workaholics que ficam ansiosas quando estão muito tempo longe do trabalho ou estudos. Mega empolgada porque, a partir da semana seguinte, eu iria começar a participar de um curso de extensão sobre fanfiction e representatividade queer. E, não posso deixar de mencionar o fato de que eu iria abordar meu futuro orientador sobre minha pesquisa de mestrado ─ que agora é orientador mesmo, graças aos deuses.


Como dá para ver, eram muito planos. E é mais engraçado ainda como aquela semana ficou gravada na minha memória porque era para ser como qualquer outro início de semestre meu. Exceto que não foi. Não foi mesmo.


Na quinta-feira daquela semana, eu tinha finalizado minha última aula por volta das 19h e tinha marcado com Magu de jantar no Nova América para celebrarmos o início do semestre. A gente foi pôr o papo em dia, além de conversar um pouco sobre a questão da Covid-19 e os rumores que a UFRJ poderia parar. Na real, naquela nossa conversa, a gente pensou que seria como a pandemia de 2009 ─ não iria chegar no Brasil de fato. Poderia ter uns casos isolados, mas nada alarmante como estava acontecendo no resto do mundo. Estávamos muito céticos em relação a coisa toda.


Imagina o nosso choque quando, no dia seguinte ao nosso jantar, a UFRJ declarou quarentena por 15 dias. Eu e Magu ficamos chocados porque tinha que ser algo bem sério para fazer a UFRJ parar. No espaço de um fim de semana, o Rio basicamente parou e até as fronteiras do Rio estavam fechadas. Foi então que eu e Magu aceitamos que o negócio ia ser muito sério e o pior estava ainda por vir.


O primeiro mês de quarentena foi bem díficil para mim: além de ter que aceitar que meus planos foram por água abaixo, eu ainda tive que lidar com uma crise de depressão e ansiedade porque meu ex-psiquiatra simplesmente desapareceu, então eu estava sem minha medicação. Foi um problema gigantesco encontrar psiquiatra atendendo na época porque estava tudo fechado e eu estava numa situação bem crítica. Não preciso nem dizer que eu não havia tocado na minha pesquisa de fandom durante aquele tempo inteiro. Minha vida parou totalmente. Bom, exceto minha vida de fangirl, mas isso porque foi o fandom que me manteve relativamente sã. Eu comecei a assistir The Untamed e encontrei conforto e distração da minha realidade nas fics daquele novo fandom.


Chegando na marca do segundo mês, consegui a consulta com um psiquiatra, voltei a tomar meus medicamentos e finalmente minha mente estava estável o suficiente para começar a lidar com a minha nova realidade: trancada em casa, sem faculdade por tempo indeterminado, sem bolsa de estudos porque também estava parado. Toda a rotina que eu programei tinha acabado. Foi aí que a minha pesquisa me salvou. Eu tinha finalmente algo concreto para focar minha atenção porque eu tenho essa necessidade. Para eu estar bem mentalmente, eu tenho que estar produzindo, eu tenho que estar engajada em algo que eu sei que fará alguma diferença, eu tenho que me sentir útil. A minha pesquisa se transformou na minha bóia salva-vida. E quanto mais eu organizei meus estudos, eu comecei a ter ideias e uma delas era fazer um curso de extensão na UFRJ relacionado ao Estudos de Fandom.


Minha amiga que estava organizando a extensão de fanfic, foi a quem eu recorri sobre essa ideia audaciosa que eu tive. Eu a convidei para montarmos juntas o projeto e, depois, mostrar aos nossos orientadores a nossa proposta. Passamos basicamente dois meses lendo e discutindo o programa do curso. Já em final de Maio tínhamos mais da metade das coisas prontas para apresentar o projeto ─ que ainda não foi apresentado, mas estamos com tudo encaminhado e isso que importa.


De Maio para cá, minha relação está muito mais off do que on com minha pesquisa. Estou fazendo um esforço agora para fazer com que ela saia do lugar porque eu preciso que ela se movimente, mas está sendo bem difícil.


Diferente de grande parcela da população, eu sou privilegiada e tenho a oportunidade de fazer quarentena. No entanto, quarentena não é fácil. Há um peso emocional que você carrega constantemente que não dá para explicar. Eu estou exausta da quarentena. Não é nem a vontade de sair na rua ─ amigos que me conhecem sabem que eu posso ficar 15 dias direto sem pisar na rua por escolha própria mesmo. Porém, a quarentena se sente diferente de um isolamento escolhido. Provavelmente seja o peso das mortes em milhares por causa da doença. Ou talvez seja o descaso do presidente. Ou tudo isso junto. Ser produtiva agora é uma tarefa quase titânica.


Eu sei que não sou a única a se sentir assim ─ estou envolvida em dois grupos de estudo dirigidos por professores da UFRJ, então tenho contato com pessoas que passam pelo mesmo problema. Contudo, isso não é o suficiente. Saber que outros entendem que agora tudo é um conflito que demanda muita energia.


Ontem mesmo eu tive minha primeira aula no Período Letivo Excepcional (PLE), que foi a forma que a UFRJ encontrou de oferecer EAD não obrigatório para um determinado número de alunos. Antes da primeira aula EAD, eu estava reclamando que consegui apenas uma vaga em uma disciplina (houve vários problemas com a PLE, incluindo distribuição de vagas), mas agora estou aliviada porque aula online não é para mim. Eu não tenho a capacidade de concentração para isso. E a culpa nem é da professora porque é uma boa professora, mas parece que não estar no ambiente sala de aula afeta o meu emocional ─ pelo menos como aluna. Eu não tive problemas de adaptação em dar aula online, por exemplo. Porém, participar de aula? Não é para mim. Eu preciso do ambiente sala de aula para aprender e eu não tinha a menor ideia sobre essa minha dificuldade. Ainda mais porque eu sempre tive facilidade em aprender coisas sozinha, então achei que seria a mesma coisa. Não, não é. Então fazer essa única disciplina, irá demandar um esforço fora do meu normal para eu conseguir me manter focada e interessada na aula. É bem triste isso porque eu sou uma aluna aplicada, eu gosto de aprender no geral e uma pessoa tem que realmente gostar de estudar para escolher fazer uma segunda graduação num ambiente exigente como o da UFRJ. Então, é meio desmotivante essa situação toda.


Enfim, só queria compartilhar essas frustrações e obstáculos que tenho sofrido com a pandemia. Especialmente vindo de mim, uma pessoa completamente dedicada e apaixonada pelo assunto que pesquiso. Assim, mesmo que não eu não esteja estudando, eu tenho contato integral com o meu objeto de estudo. E com tudo isso, ainda tenho problemas. Na real, a conjuntura atual está afetando negativamente o nosso psicológico e não tem amor à pesquisa e vida acadêmica que nos salvará da quantidade de terapia que provavelmente teremos que fazer quando retornarmos a nossa vida “normal”. Ponho essas aspas, pois não tenho ideia o que será considerado normal após esse ano inteiro de vivência de pandemia. E é basicamente isso que gostaria de partilhar com vocês.

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