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ACAFÃ: Mudanças no Caminho

Atualizado: 15 de Set de 2020

Por: Natália Seixas

13/07/2020


Quando comecei a pesquisar fandom lá em 2018, eu tinha uma ideia completamente diferente do que eu iria estudar. Honestamente a única coisa que permaneceu foi o tema: fanfiction. O resto? Mudou completamente.

De início, eu tinha uma ideia geral do que eu ia estudar: fanfiction como representação queer e como isso ocorria no fandom de Capitão América através, especificamente, do casal Steve/Bucky (conhecido como Stucky entre fãs). Nessa mesma época, eu encontrei um professor de Literatura Inglesa na minha faculdade que estava disposto a ser meu orientador nesta pesquisa. Foi aí que comecei a ler alguns textos introdutórios escritos por intelectuais da área de Estudos de Fandom, principalmente pessoas que estudavam fanfiction ─ tais leituras ajudaram a moldar minha perspectiva em relação a pesquisa que eu estava realizando. Daí que percebi que, na verdade, eu deveria estudar a construção do romance queer e como ele é retratado em fanfiction, usando histórias Steve/Bucky como referência. Esse foi o momento que começaram a aparecer os problemas da minha pesquisa.


Em 2018, eu ainda não tinha aceitado, mas eu já estava praticamente fora do fandom de Capitão América. Eu estava meio apegada a ideia de pesquisar Steve/Bucky e realmente não sei explicar porque estava tão apegada a isso. Provavelmente porque eu prometi a mim mesma que se eu tivesse uma oportunidade de estudar fanfiction, eu definitivamente iria escolher fics Steve/Bucky. Eu tenho essa tendência estúpida de tentar cumprir toda promessa que faço a mim mesma, ainda que eu já tenha perdido interesse ─ o que foi exatamente o que tinha acontecido comigo.

Quando comecei a pesquisar fanfic, eu quase não participava mais do fandom de Capitão América e isso aconteceu, em grande parte, por culpa da Marvel. Primeiro, nós tivemos toda aquela trama do Steve ser, na verdade, membro da Hidra nos quadrinhos ─ eu fiquei enfurecida e decepcionada com o que eles fizeram. E, logo depois desse arco horrível, estreou Guerra Civil e esse filme foi tudo menos um filme do Capitão América. Então, você pode imaginar o nível da minha frustração naquele momento. Eu estava tão furiosa que nem o fandom podia me salvar do meu ódio. Infelizmente, eu levei quase um ano e meio para entender o que estava acontecendo comigo.

Depois que percebi que o problema mesmo era o casal, eu mudei para Merlin/Arthur, conhecido como Merthur pelas fãs, da série britânica da BBC Merlin (2008). No momento que me livrei Stucky, eu finalmente consegui a voltar a trabalhar na minha pesquisa. Eu pesquisei sobre Teoria do Romance, Teoria Queer e a representação de minorias em filmes e séries de TV. E, mesmo tendo lido os principais livros desses campos de pesquisa, eu não cheguei a lugar algum. Isso aconteceu por um simples fator: não existe quadro teórico que dê conta do que eu estudo. Compreender isso foi crucial para minha vida acadêmica porque eu finalmente entendi o que eu devia fazer. Eu precisava criar um quadro teórico que definisse fanfiction, especificamente, fanfiction slash [1]. Aí sim, depois de ter feito isso, eu poderia pesquisar sobre a construção de romance queer dentro de fic. Meu mundo mudou depois disso.

Após eu ter esse insight, entrei em contato com meu orientador na época e expliquei que eu mudaria de área. Minha pesquisa evoluiu para algo bem diferente da proposta inicial e faria muito mais sentido eu ter um orientador do campo Teoria Literária do que um de Literatura Inglesa. Ele foi muito compreensivo e me desejou boa sorte para esse novo caminho que eu havia escolhido. Logo depois, eu mandei mensagem para um dos melhores professores que já tive na minha vida, que convenientemente ensina Teoria Literária, e ele aceitou se tornar meu orientador. Agora, no fim de Junho, nós tivemos a nossa primeira reunião para discutir minha pesquisa.

Foi extremamente produtiva. Minha conversa com ele foi a prova concreta que fiz a escolha certa de mudar de campo. Nós conseguimos estabelecer tantas coisas. Primeiro, eu já sei como começar a construir o quadro teórico que tinha em mente ─ o que, para mim, é a maior conquista de todos os tempos.

Não vou fingir que não estava aterrorizada com a ideia de criar um quadro teórico a partir do zero. Eu não tinha nem ideia de como eu poderia começar a fazer o negócio antes de conversar com meu orientador. Ele examinou comigo cada coisa que eu tinha escrito relacionada a minha pesquisa e, surpreendentemente, ele já havia encontrado a solução. Contudo, ele não me disse diretamente o que era, mas sim me conduziu até eu chegar à mesma conclusão. Ele não me deu de mão beijada a resposta não, eu tive que fazer um grande esforço até ver o que eu já deveria ter percebido, pois a solução já estava presente no que eu havia escrito sobre a pesquisa. Quando eu finalmente compreendi o que eu deveria fazer, pela primeira vez desde que comecei a minha pesquisa, eu me senti capacitada para levar a cabo tudo que eu queria. Esse processo me ajudou a construir uma confiança que estava faltando em mim e isso foi um desenvolvimento muito bonito. Eu finalmente vi progresso no que eu estou fazendo, algo que eu não sentia há muito tempo. Portanto, uma importante lição que ficou para mim, e que pode servir para muita gente, é que seu orientador precisa te fazer se sentir capaz de encontrar um caminho para seguir com sua pesquisa com a ajuda dele, mesmo que ele não entenda muito do seu objeto de pesquisa em si.

Agora vocês devem estar se perguntando: mas o que você vai fazer então? Bem, irei construir um quadro teórico que delineie fanfiction slash que siga o padrão da histórias “bem escritas” publicadas no site AO3 entre o fim dos anos 2000 até o fim da década de 2010. Para criar esse quadro teórico, usarei trechos de fanfics e compará-los a uma série de livros que foi escrita por uma autora que já escreveu fanfic e conseguiu reproduzir o estilo fanfiction de escrita em sua história original. Meu intuito com essa pesquisa é oferecer uma definição acadêmica para o famoso elogio “isso parece uma fic”. É uma forma de mostrar que fanfiction tem um estilo próprio e que está afetando diretamente o mercado literário. Na verdade eu tenho certeza que alguém, provavelmente Kristina Busse ou Karen Hellekson [2], apontou a falta de pesquisa focada na estrutura da fanfiction. Elas afirmam que o campo precisa de alguém que tente definir essa estrutura em termos acadêmicos. Então, é isto que irei fazer. Esse será o trabalho da minha vida. E honestamente? Mal posso esperar para começar!

[1] Slash é o termo para designar fanfics centradas em casais gays, como Steve/Bucky e Merlin/Arthur.

[2] Principais pesquisadoras na área de Estudo de Fandom, principalmente em relação a fanfiction.

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