Rio de Janeiro

Diálogos

ACAFÃ: Do Ativismo de Fã ao de Cientista

Atualizado: 15 de Set de 2020

Por: Natália Seixas

Data: 20/06/2020


Eu pensei em diversas formas de como começar esse texto. Cheguei até a escrever três parágrafos que narravam como a pandemia afetou minha vida e como precisei de meios para lidar com as perdas que sofri durante a quarentena (a perda dos meus planos, da minha estabilidade financeira, do meu equilíbrio emocional, do balanço entre minha depressão e ansiedade). Contudo, não consegui evocar os sentimentos que eu queria. Então, vou começar falando de onde tudo começou.

Ano passado eu passei a frequentar o Clube Coréia, um grupo de estudos de coreano na UFRJ. Lá, conheci Gabi que começou a falar comigo por conta da capa do meu celular. Tinha uma fanart de dois atores tailandeses que adoramos. Acabou sendo relativamente fácil para nós nos tornarmos amigas.


Não lembro exatamente como acabei mencionando meu projeto de pesquisa, mas eu sei que eventualmente conversamos sobre meu amor por fanfiction e como eu resolvi estudar minha paixão na graduação, com planos de expandir e aprofundar a pesquisa no mestrado e doutorado. Ela confessou ter vontade de estudar fandom também e, como toda boa fangirl, dei todo meu apoio, né? Porque é isso que mais queremos sempre! Pessoas estudando o que a gente estuda, especialmente se já fazem parte de fandom. Eu ofereci minha “pequena” biblioteca virtual de materiais sobre estudos de fandom, caso ela realmente quisesse investir em pesquisa. Alguns meses depois, ela aceitou minha proposta, pois estava com a ideia de fazer uma extensão sobre representação LGBT em fanfic. Fiquei bem animada com o projeto, mas acabou caindo no esquecimento com a agitação de fim de semestre e, logo depois, um grande período de férias.

No fim de fevereiro, Marcelo, meu amigo, me avisou que tinha um novo curso de extensão para aquele semestre e que era a minha cara! Me enviou o poster de divulgação do curso Representatividade LGBTQ+: diálogos entre a produção mainstream versus fanfiction. Aí a ficha caiu! Era o mesmo curso que Gabi tinha comentado no ano anterior! Obviamente, me inscrevi e estava extremamente animada para participar de algo que realmente me encanta. E aí, veio a COVID-19 e… Bom, vocês já sabem o que aconteceu.

Por conta da minha animação sobre o curso que ela ia administrar, eu e Gabi começamos a trocar mais mensagens e conversarmos muito mais - tanto sobre nossos fandoms quanto nossas pesquisas. Ela até me convidou a dar aula sobre o que é fanfiction, já que é o meu tema de pesquisa. Não só aceitei como fiquei extremamente entusiasmada com a ideia de ter um espaço longo para falar sobre fanfic e sua relevância. Confesso que me peguei pensando no futuro, quando eu pudesse talvez dar um curso não só sobre fanfics, mas também sobre práticas de fandom e explorar os estudos de fandom.

Foi aí que pensei… Por que esperar? Depois de ter esquematizado vagamente o que eu gostaria de fazer, sondei Gabi para ela ser minha parceira nessa empreitada e ela concordou.

E é por isso que decidi fazer essa série de textos sobre o espaço do acafã na academia (do inglês acafan, que é a união dos termos academic + fan [1]). A série nasceu da ideia de fazer uma espécie de diário que acompanhasse o processo de criação do curso, ao mesmo tempo que refletisse meu laço afetivo com o trabalho sendo desenvolvido. A minha proposta é de desenvolver uma autoetnografia [2] sobre esse movimento que estou realizando de sair do meu papel de fangirl ativista para de uma fangirl acadêmica.

Esse é o tipo de registro significativo que quero cultivar quando estiver mais velha e quiser olhar para meu passado como acafã e saber como tudo começou.

[1] Academic significa acadêmico e fan significa fã.

[2] Autoetnografia é um método de pesquisa utilizado em Sociologia e Antropologia. Existe duas formas de ser executado: uma em que o autor é membro do grupo do qual se está pesquisando e escreverá como ele está inserido em tal grupo e a outra é a de um antropólogo alheio ao grupo e que está escrevendo sobre a experiência pessoal dele ao fazer a pesquisa nesse determinado grupo.

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