Rio de Janeiro

Diálogos

ACAFÃ: Começos e Histórias de Fandom

Atualizado: 15 de Set de 2020

Por: Natália Seixas

04/08/2020


Nessas últimas semanas eu tenho pensado muito sobre os inícios da minha vida. Nesse último fim de semana, eu fiz com Magu e Yan o nosso novo quadro do Cattártese e refletimos um pouco sobre a origem do nosso espaço. Essa reflexão me fez pensar sobre os diferentes começos que experienciei e que, muita das vezes, nem percebi que era o começo de algo muito maior que imaginava. Daí tive a ideia de falar um pouco dos meus começos como fangirl e, agora, acafã.

Como todo bom Millennial, minha principal paixão adolescente era Harry Potter. Eu li o primeiro livro em 2002 e me tornei uma fã ávida, terminando todos os livros publicados até aquele momento em poucos dias. O meu único contato com fãs de Harry Potter eram os meninos da minha escola que haviam lido também. Nós passávamos o recreio entre discussões sobre o futuro de Harry Potter e esse era o meu máximo de exposição a fãs. Pelo menos por três anos até tudo mudar para mim. Essa mudança veio em 2005 na forma de um presente de aniversário.


Para celebrar meus 14 aninhos, minha mãe me deu meu primeiro computador juntamente com um pacote básico banda larga da Velox ─ o ápice de prestígio na época. Eu sabia que as coisas iam melhorar com a chegada do meu computador, mas não sabia em quais aspectos exatamente. Obviamente, a primeira coisa que fiz quando tive acesso à internet foi buscar o máximo de conteúdo relacionado a Harry Potter. Eu lembro como se fosse hoje: em meados de março, em uma das minhas buscas, encontrei um flog no Gigafoto (meus deuses, será que alguém lembra do Gigafoto?) com imagens de Harry Potter que, curiosamente, tinham histórias inéditas as acompanhando! E foi assim que tive meu primeiro contato com fanfiction ─ tema que se tornaria o amor da minha vida.

Sair do Gigafoto e me unir ao Fandom online por meio de fóruns foi extremamente rápido, pouco me lembro dessa transição. No entanto, lembro de alguns sites que cheguei a ver: Harryoteca, Aliança Três Vassouras e Floreios e Borrões. Eu tenho particularmente um carinho pelo Aliança, pois foi o lugar que li minha primeira fic slash [1] (que mudou minha vida em diversas formas, mas falaremos sobre isso em outro momento) e quando me apaixonei por Harry/Hermione ─ razão pela qual acabei encontrando o fórum Pumpkin Pie. O tempo que passei no fórum foi a minha única experiência positiva em termos de fandom brasileiro.


Lamentavelmente, o fandom brasileiro na época era um local muito tóxico para mim. Uma das memórias mais marcantes e aterrorizantes foi de um grupo de escritoras relativamente conhecidas no fandom de Harry Potter que pegavam fanfics “mal escritas” e debochavam de forma extremamente cruel. Uma das minhas fics foi vítima e aquilo me traumatizou de uma forma que quase parei de escrever no geral. Hoje em dia, com a sabedoria que tenho, eu entendo o quão cruel e irresponsável aquele grupo era, especialmente por serem mulheres bem mais velhas do que eu. Afinal, eu tinha uns 15 anos na época, então obviamente minha escrita seria imatura e inferior comparada com as delas.

Ironicamente, porque o mundo dá muitas voltas, anos depois uma das mulheres daquele grupo me enviou um comentário numa fic de Glee minha (eu já tinha trocado meu nome de usuário e blog, então ela não tinha a menor ideia quem eu era), me parabenizando pela história genial e como ela amou minha escrita ─ o que prova que ela estava muito errada quando disse que minha escrita não me levaria a lugar algum. Aliás, uma das razões que não abandonei a escrita foram os amigos que fiz no fórum Pumpkin Pie.

Lá eu conheci muitas pessoas maravilhosas e, entre uma delas, estava Inna Puchkin Ievitich ̶ uma das mulheres mais maravilhosas que tive o prazer de ser próxima. Por ser mais velha, ela teve o papel de madrinha minha. Eu conversava sobre meus problemas tanto pessoais quanto de fandom e foi ela uma das minhas maiores incentivadoras a desenvolver minha escrita, ao menos para provar aquele grupo que elas estavam erradas e eu poderia ser uma boa escritora. Ela me ajudou muito e aprendi tanto com ela, principalmente em relação ao meu pensamento crítico. Tenho muito que agradecer a ela.

Enfim, lá pelo final de 2006, eu comecei a desenvolver uma paixão por Supernatural e por Yaoi [2] e isso me impulsionou a explorar outros fandoms. Como havia pouquíssimo material em Português na época sobre Supernatural, eu acabei encontrando um fórum em Espanhol e assim eu me afastei do fandom brasileiro ─ o que foi a melhor decisão que tomei.

Em algum momento de 2007, eu comecei a me aventurar no fandom em Inglês de Supernatural porque já tinha lido todas as fics em Espanhol e eu queria muito mais. Foi isso que me levou a aprender Inglês sozinha e a razão de eu ter me tornado fluente. Entre ficar sem fic para ler e aprender uma língua nova por minha conta, eu escolhi aprender uma língua nova. Nem preciso dizer que meu universo se expandiu de forma inimaginável.

Entre 2007 e 2008, eu dividi meu tempo entre o fórum espanhol de Supernatural, blogs e comunidades no Livejournal que postavam sobre os fandoms que eu me interessava e sites de fansub [3], scans [4] e doujinshis [5]. Esses foram meus anos de consolidação como fangirl. As coisas que eu fazia por ser uma Potterhead lá em 2005 deixaram de ser sobre Harry Potter em particular e viraram minha forma standard de consumir obras de arte.

O mais curioso é que eu acidentalmente escolhi uma época muito conturbada para me estabelecer como fangirl no Livejournal. Em 2007, ocorreram dois evento que ficaram conhecidos como Strikethrough e Boldthrough. O primeiro foi a suspensão definitiva de mais de 500 blogs baseados na listas de interesses que incluíam crimes sexuais e algumas práticas como BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo). Foram deletadas contas de blogs de RPG, grupos de discussões, blogs de sobreviventes de estupro e blogs de fãs. O segundo evento ocorreu meses depois e envolviam quase as mesmas razões, contudo Boldthrough particularmente perseguiu conteúdos criados por fãs.

Esses dois eventos causaram perdas irreparáveis a todos os fandoms da época, o que levou a discussão entre fãs sobre como proteger conteúdos fannish [6]. Foi daí que nasceu a Organization for Transformative Works (Organização para Obras Transformativas em Português), uma organização internacional sem fins lucrativos com o intuito de criar espaço para proteger e defender legalmente conteúdos fannish. Isso foi provavelmente uma das coisas mais importantes, senão a mais importante, na história do Fandom. A OTW existe para lutar pelo direito dos fãs existirem e produzirem seus conteúdos sem serem processados ou perseguidos ─ o que era comum de ocorrer até o fim da primeira década de 2000 (olhando para você, Anne Rice). Porém OTW não se reduz a apenas a proteção e defesa do Fandom (projeto Legal Advocacy); ela também arquiva (projeto Archive of Our Own) e salva (projeto Open Doors) conteúdo com o intuito de preservar a memória do Fandom, ela tem um site para ajudar na pesquisa e estudo da cultura de fã (projeto Fanhackers), ela tem uma enciclopédia online sobre fandoms e fãs (projeto Fanlore) e uma revista acadêmica sobre cultura de fã (projeto Transformative Works and Cultures). Foi por causa da criação de OTW, especificamente a revista acadêmica, que conheci Estudos de Fandom.

Até hoje eu me lembro do primeiro ensaio que li. Eu lembro de ter achado um post enquanto eu procurava fanfic em uma das comunidades de Supernatural que eu frequentava. O post anunciava a estréia da revista, porém promovia particularmente um artigo pela Prof.ª Catherine Tosenberger, da Universidade de Winnipeg. O artigo em questão é o "The epic love story of Sam and Dean": Supernatural, queer readings, and the romance of incestuous fan fiction e esse foi meu primeiro contato com Estudos de Fandom. Eu lembro de ter lido o artigo e ter ficado chocada com a noção de estudar Fandom. Infelizmente, não fiquei impressionada o suficiente para mudar de carreira e ir estudar fandom. Demorou literalmente uma década para eu fazer isso, mas cá estou finalmente fazendo o que amo.

Apesar de não ter mudado muita coisa imediatamente na minha vida, ler aquele artigo abriu uma janela da qual eu espiava ocasionalmente por mera curiosidade vez ou outra. Meu contato com Estudos de Fandom intensificou mesmo quando mudei de plataforma e migrei para o Tumblr (onde estou até hoje, diga-se de passagem).

O aspecto mais curioso sobre o Tumblr é que, de todas as plataformas que vivi nessa década e meia de fandom, foi o que mais me proporcionou um engajamento positivo e a disseminação de informações úteis para meu desenvolvimento. Com o Tumblr, eu não só expandi meus horizontes aprendendo sobre feminismo, misoginia, racismo, homofobia, gordofobia, como também aprendi a pensar criticamente sobre meus gostos e minhas práticas como fã. O melhor de tudo é que eu participava e acompanhava essas discussões de cunho analítico por diversão, sem pretensão alguma. Eu não acordei um dia e pensei "vou estudar fandom agora" e comecei a participar. Foi algo bem gradual e orgânico.

Primeiramente, porque até o início de 2016, eu pensava que História era a única possibilidade de carreira. Aí, eu me formei em maio daquele ano e senti um vazio enorme, pois eu finalmente entendi que eu não queria trabalhar com História e que fiz o curso muito mais para satisfazer meu sonho de criança (sim, meu sonho era ser historiadora formada pela UFRJ) do que amor pela profissão. Depois de algumas tentativas frustradas de arranjar um emprego, eu consegui um como instrutora de Inglês. Eu acabei curtindo dar aula de Inglês porque era algo que eu dominava e minha mãe, se aproveitando da situação, me incentivou a fazer o ENEM novamente e voltar para UFRJ para estudar Inglês dessa vez. Foi só quando eu estava escrevendo no meu tumblr pessoal sobre minha decisão de voltar para faculdade para fazer outro curso que caiu a ficha: eu finalmente poderia trabalhar com fandom. Especificamente fanfiction. E foi exatamente o que eu fiz!


E agora eu estou aqui, estudando o que amo e usando todo o conhecimento que acumulei em 15 anos para construir minha carreira acadêmica. Demorou mais do que eu esperava, mas posso dizer que não me arrependo de tudo que vivi. Não seria a acadêmica e fangirl que sou hoje sem toda essa bagagem que acumulei. Minhas experiências como fã se tornaram um dos meus bens mais preciosos e eu não poderia estar mais feliz e satisfeita do que estou agora.

[1] Slash é o termo para designar casais de homens enquanto femmeslash é o termo para casais de mulheres.

[2] Gênero de anime e mangá que é focado no envolvimento amoroso entre dois homens.

[3] Sites que disponibilizam de forma não-oficial legendas para animes, live-action e mangás.

[4] Sites que disponibilizam de forma não-oficial traduções de mangás e romances.

[5] Doujinshis funcionam na lógica da fanfiction: são histórias em formato de mangá que geralmente são sobre personagens populares. Contudo, também pode ser usado para denominar trabalhos de artes amadores que envolvem personagens originais.

[6] Relacionado a fãs e/ou Fandom.

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