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ACAFÃ: É Hora de Reclamar!

Atualizado: 15 de Set de 2020

Por: Natália Seixas

Data: 06/07/2020


Nesse exato momento, eu estou lendo os trabalhos chave de Estudos de Fandom. Estou lendo e selecionando trabalhos que trarão os tipos de debates que quero ter sobre fandom dentro de sala de aula. É um exercício básico que qualquer professor competente realiza não importa o tempo que tenha lecionando.

Não finjo ser grande conhecedora de tudo relacionado aos Estudos de Fandom porque comecei a estudar recentemente, mas estou lentamente consumindo a maior parte dos textos que são considerados básicos para qualquer intelectual de fandom e eu tenho algumas observações a fazer. Em sua grande maioria, são observações direcionadas aos puramente acadêmicos, ou seja, que não são fãs.

Um ponto importante sobre a pesquisa em fandoms é que muitas pessoas que não compreendem, de fato, esse meio acabam se engajando nisso e cometendo equívocos. É complicado que um pesquisador de fandoms pesquise um fandom sem que consume o mesmo tipo de conteúdo ou parte a integrar o cotidiano de determinada "bolha" de entretenimento.

Outro ponto que acadêmicos não-fãs carregam é (não sei se intencionalmente), o fato de acreditam que suas análises são realmente imparciais só porque não fazem parte da cultura de fã. Como uma historiadora, eu vou dizer uma única coisa: não existe imparcialidade. Todo mundo assume uma determinada posição, especialmente se vocês estão estudando alguma coisa em particular. Se vocês se comprometem a realizar pesquisas, ainda mais uma que se torna o trabalho de suas vidas, é indiscutível que vocês são parciais e isso é bem evidente. Meu deus, vocês não tem ideia de quão óbvio é, ainda que vocês pensam que não é perceptível. Eu posso ler entrelinhas e compreender que a grande maioria acham que somos muito similares a fanáticos religiosos - o que já demonstra a ignorância em relação ao fandom no geral.

A última coisa que um fandom faz, coletivamente falando, é venerar ou admirar excessivamente qualquer coisa. Fandom é um bando de críticos brutais que mesmo jurando amar tal coisa, eles absolutamente destruirão o seu objeto de amor a qualquer momento e em qualquer lugar caso eles sintam no direito de fazer tal coisa. Nada é sagrado e nada está salvo de crítica ou da crueldade do fandom. Se vocês não sabem ou não entendem essa noção extremamente básica sobre o fandom, vocês realmente não têm idéia do que estão estudando ou sobre o que estão falando.

Aliás, acho que os termos fã e fandom são usados de forma displicente por alguns acadêmicos não-fãs. Todas as pessoas que têm um entusiasmo intenso por uma obra artístico em particular são fãs e, meio que automaticamente, fazem parte do fandom. Discordo completamente com isso. Esses fãs não fazem parte de fandom. Fandom é um coletivo, são pessoas se juntando, interagindo, estabelecendo relações. É algo de natureza social e eu digo isso como uma fã de fandom desde 2005.

Olha, eu sempre fui fã no sentido de ficar obcecada por determinadas coisas. Quando eu tinha 10 anos de idade, eu já sabia recitar cada frase e cantar cada verso de todas as músicas de O Rei Leão, A Pequena Sereia e Mulan. Isso quer dizer que eu fazia parte do fandom naquela época? Absolutamente não. Eu apenas me tornei uma fã de fandom em 2005 quando eu entrei para uma comunidade de fãs e comecei a consumir obras feitos por fãs. Acadêmicos que não são fãs precisam começar a escutar aos fãs porque nós mesmo nos distanciamos desses fãs. É tão desrespeitoso pegar nossos termos e empregá-los para outro grupo de uma forma que que não é para ser feita, especialmente para explicar experiências que não são relacionadas a nós.

Mas talvez o problema venha do nome do campo de estudo[1]. Talvez se fosse chamado Estudos de Fandom, nós não teríamos esse tipo de controvérsia em relação ao uso de termos como fã e fandom. Afinal de contas, Estudos de Fãs sugere todos os tipos de fãs e não apenas aqueles que fazem parte de um coletivo organizado. Talvez a solução seja ter dois campos: Estudos de Fandom, para lidar com a experiência social e dos indivíduos que realizam práticas de fãs (Jenkins apontou em seu estudo que pessoas que se identificam como fãs não focam em uma obra em particular, mas sim em uma gama de obras e empregam as práticas de fãs nessas obras) e Estudos de Fãs, para lidar com a experiência individual e isolada de ser entusiasta (leia-se desenvolver um vínculo emocional) de obras da cultura pop.

Entusiastas geralmente se identificam como fãs de tal obra porque a palavra fã se tornou comum, mas eles não usam o termo fandom porque, na grande maioria das vezes, eles nem sabem da existência da palavra e muito menos o que significa. Então, como vocês podem reduzir fandom para qualquer experiência de vínculo emocional com uma obra artística? Se fãs de fandom, muitas vezes, se diferenciam de outros fãs dizendo “eu gosto disso, mas não faço parte do fandom”, isto é, consumir e/ou criar trabalhos de fãs dessa obra em particular; como vocês ousam usar nossos termos e empregar a pessoas que nem sabe o que isso significa só porque criaram um vínculo emocional com uma obra qualquer da cultura pop?

Se alguém não participa de práticas de fãs (ou seja, conteúdo criado por fãs em uma comunidade organizada), eles não fazem parte de fandom. E, quando digo participar eu falo tanto consumir quanto criar, não apenas um deles. Isso é outra noção básica sobre fandom. É outro exemplo de um problema recorrente de acadêmicos não-fãs: vocês não respeitam o que é estabelecido nas nossas comunidades.

Alguém que assiste uma série ou um filme regularmente ou apenas ama demais não faz parte do fandom. Não é tão simples assim. E, se vocês acham que não é assim, eu os desafio a fazer uma única coisa: vá numa estréia de um filme de alguma grande franquia como Marvel e, sem nenhum contexto, comecem a fazer perguntas às pessoas que parecem ser emocionalmente investidas no filme, por exemplo, aquela galera que está usando uma blusa relacionada ao filme. Perguntem coisas como ‘então, qual é sua análise/meta favorita relacionada a esse filme que está prestes a assistir?’ e aí vocês vem me dizer quantas pessoas entenderam do que vocês estavam falando,. Eu aposto que nem metade das pessoas vestindo blusas da franquia saberia dizer o que é um fandom e muito menos o que é meta/análise nesse contexto.

Então, ser parte do fandom significa estar engajada em práticas sociais particulares. Assim é como, entre nós mesmos, nos diferenciamos das pessoas que simplesmente amam demais uma obra artística em particular. É diferente. Acadêmicos que não são fãs precisam lembrar que os objetos que estão estudando são seres vivos e incrivelmente analíticos. Então acho que está na hora de darem um passo para trás, repensarem sua postura e respeitar as normas determinadas pelas comunidades que vocês pesquisam. Eu faço parte de fandom há 15 anos e nunca vi uma fã sequer defender a ideia de que pessoas que amam intensamente uma obra de ficção e não fazem nada além de comprar uma blusa porque é legal, serem parte do fandom quanto nós.

Nunca.

[1] Em inglês o campo é chamado Fan Studies, que significa, Estudos de Fãs.

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