Rio de Janeiro

Diálogos

A Origem Do Rock: Paralelos Esquecidos

Por: Winnie Kássimo

19/07/2020


"A música sensual dos negros, na batida selvagem, acompanhada por palavras chocantes em sua sujeira… as palavras dos 'cantores' negros são impublicáveis, os movimentos dos 'músicos' negros, indizíveis… enquanto os pretos embalavam suas batidas pesadas, a conversa de crianças brancas fluía pelo auditório, repleta de grosseiras frases negras. Garotas brancas corriam para camarins de estrelas negras para tirar fotos. Onde estavam seus pais? Serão eles pessoas brancas responsáveis? Será que se importavam?"

Essas palavras, que poderiam tranquilamente ser ditas por um crítico de funk brasileiro em 2020, foram publicadas na década de 1950 por Asa Carter, segregacionista estadunidense, comentando um show… de rock and roll! Como em tantos outros elementos da cultura ocidental (principalmente quando se trata de música, o século XX que o diga), é bem comum reconhecer figuras de realeza branca no Rock'n'Roll e esquecer que ele tem raiz - e essência - preta. Nem vamos entrar no mérito de como o rock se tornou tão embranquecido e alienado de suas origens a ponto de ganhar a imagem pública de "música de tiozão reaça". Não. Hoje vamos relembrar umas verdades esquecidas.

A juventude estadunidense entediada dos anos 50 precisava mais que Doris Day e musicais Hollywoodianos como qualquer geração adolescente. O gosto musical "dos adultos" não era suficiente para expressar as emoções e a necessidade de movimento que pairava no ar nesse pós-guerra efervescente. O Rhythm'n'Blues, música preta produzida principalmente no sul do país, passou a chamar atenção dos jovens. Pianos frenéticos, guitarras envolventes, batida que atraía inevitavelmente para pista de dança… e o senso de rebeldia. Ah, a glória do proibido! Imagina o horror de se ouvir "som de preto, de favelado" dentro da casa de um branco americano cidadão de bem?!

Enquanto a classe média americana flertava com o proibido, segregacionistas se revoltavam em massa. Era um absurdo que crianças brancas estivessem escutando aquele tipo de música que vulgarizava e trazia à tona o lado animal das pessoas (mais uma do Sr. Carter – moço legal, né?). O capitalismo, por sua vez, cumpria seu papel de sempre: alimentando os dois lados da polêmica. Disc Jockeys como Alan Freed tocavam sem parar os discos de artistas pretos nas rádios. Artistas pretos incríveis começaram a se tornar conhecidos sob aquele novo termo guarda-chuva meio estranho. "Isso aí que vocês chamam de Rock'n'roll é Rhythm'n'Blues. Toco em New Orleans tem mais de 15 anos", dizia Fats Domino, considerado hoje o padrinho do Rock'n'roll. Sister Rosetta Tharpe (foto) , considerada a madrinha do rock, preta cantora e guitarrista gospel que foi referência de inúmeros cantores e guitarristas do gênero incluindo Chuck Berry (não, não foi o Marty McFly que escreveu Johnny B. Good), e também foi possivelmente uma mulher LGBTQIA+. Por conta da natureza do seu estilo musical, dá pra ver porque informações sobre sua sexualidade nunca foram confirmadas. Artistas brancos tiveram sucesso fazendo hits como Rock Around the Clock e aproveitando "essa onda passageira".

O que faltava ao Rock'n'roll era "o rosto certo". Ele tinha sensualidade. Ele tinha alma! Mas era… Escuro demais para ser vendável. O racismo e o capitalismo, porém, de mãos dadas, sempre foram capazes de coisas incríveis! E eis que surgiu em Memphis, Tennessee, Elsvis Presley, rapaz do Mississippi que dançava como um negro, mas tinha a "boa aparência" necessária para brilhar. Nascia ali "o rei do rock". O título foi consagrado tanto pela mídia quanto pelo público e, no entanto, na presença da verdadeira realeza, o próprio Elvis rejeitava o título e enfatizava que ninguém cantava como Fats Domino. Com a ascensão de Elvis, veio junto uma tradição de covers de hits de artistas negros que, às vezes eram ótimos ─ Elvis era realmente muito bom, mas ouça Hound Dog na voz de Big Mama Thornton, vá por mim. Mas, às vezes, esses covers eram bem, bem ruins e Little Richard merecia coisa melhor ─, aliás, se você me perguntar, o Rei do Rock é ele. Aquele cover de Tutti Frutti, por Pat Boone, é embaraçoso, de verdade. Aliás, esse mesmo cover é a manifestação física das pretensões de dissociação do rock da negritude. Ouça, se conseguir. Se não conseguir, tudo bem, eu entendo. É muito ruim mesmo.

É um pouco cômico e muito trágico como a história se repete em muitos lugares e de formas diferentes. Em qualquer lugar atingido pelo imperialismo colonizador, essa aculturação, ou tentativa dela, acontece. Vemos, na prática, como é difícil ter sucesso sendo preto e fazendo coisas de preto em qualquer lugar no mundo. Quanto mais escuro, mais difícil, menos visto, mais feio e menos humano se é. Os paralelos da origem do Rock'n'roll com qualquer outro aspecto cultural que foi embranquecido pelo capitalismo não são meras coincidências. Nem é coincidência que os discursos loucos de pessoas aparentemente insanas gritando que "isso não é coisa de gente" sejam tão parecidos ao que ouvimos hoje. Fiquemos bem atentos. Não é loucura. É projeto.

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