Diálogos

A Falta Que Faz "Castelo-Rá-Tim-Bum" e Como Os Programas Educativos Emburreceram Com O Tempo:

Por: Magu Cintra Lopes

Data: 12/08/2020




A TV brasileira, principalmente a TV aberta, vive de fases e isso é óbvio. Porém, é perceptível que a programação infantil foi descontinuada há muito tempo. Substituídos ou não por desenhos ou enlatados que rendem mais (financeiramente, no caso), os programas e séries infantis praticamente desapareceram ou sobrevivem na tv à cabo em formatos americanizados que se distanciam totalmente da realidade do brasileiro.

Tempo é dinheiro. Como as emissoras educativas não sofrem uma cobrança voraz de anunciantes que cobram terceiro, segundo ou primeiro lugar em audiência, sempre foi permitido a elas ousar um pouco mais em sua grade. E tudo isso rendeu ícones extensamente reprisados como: "Mundo da Leitura"(Paraná Educativa), "Um Menino Muito Maluquinho" (TVE Brasil, hoje, TV Brasil), Mundo da Lua (TV Cultura) e, claro, o "Castelo Rá-Tim-Bum" (TV Cultura).

Mas o que o "Castelo" tem de tão diferente a ponto de, praticamente, se tornar o “Chaves” da TV Cultura? Isso se nos permitirmos essa alusão esdrúxula, considerando o número de reprises e engajamento que as mesmas geram – sem levar em conta o fato de que ambas as produções entraram para o hall de cultura pop.

Foto: CEDOC / TV CULTURA

Antes de falar do “Castelo” é preciso falar de seus antecessores campeões: Mundo da Lua e Rá-Tim-Bum. Enquanto “Mundo da Lua”, apesar de educativo, focava muito mais no desenvolvimento de uma ação dramática e na educação puramente por essas ações, o “Rá-Tim-Bum” possuía uma carga pedagógica muito mais explícita e densa. E aqui vale lembrar que, dada a diferença de período em que as produções foram realizadas, as visões que se tinha sobre educação eram totalmente diferentes. Em poucas palavras: Enquanto o “Rá-Tim-Bum” dizia que a esfera é um sólido geométrico, o “Mundo da Lua” mostrava o personagem Lucas jogando bola e o “Castelo” conseguia unir essas duas coisas através de suas interrupções, janelas e quadros que em nada atrapalhavam o desenvolvimento do enredo.

E é justamente isso o que encanta no “Castelo”. Muita gente fala que é porque ele “diverte enquanto educa” ou porque “a criança nem percebe que está aprendendo”. Como pessoa que estuda educação, eu seria inconsequente se concordasse com essa afirmação. O “Castelo” é uma boa produção porque nela a criança SABE que está aprendendo e SABE que aquilo ali está sendo bom para ela. Ela aprende a criar sentido naquilo ali.

Mais do que isso, havia a preocupação em retratar o Brasil. Um castelo com uma bruxa milenar, no meio do Bixiga, conseguia ser muito mais real do que muitos outros prédios que andam rondando os programas infantis atualmente. Uma personagem negra e mulher, um personagem folclórico, discussão de temas mais do que pertinentes (como aquele famoso episódio da “Zula”, a menina azul...) e uma disposição enorme para problematizar a convivência entre crianças (umas de 10, 12 e outras de 300...). Tudo isso em uma época que “representatividade” e “valorização da cultura brasileira” era papo de adulto muito cult, ou então, nem desses...

Aprendi muito com a Morgana, mesmo que em seus quatro minutos de quadro ela nem sempre conseguisse trazer todos os lados das histórias que contava... Em quatro minutos fica mais fácil dizer que, de fato, Cabral descobriu o Brasil. Que bom seria se esse fosse o único conserto que nós precisássemos fazer nos programas infantis atualmente... Só para “desemburrecer” os roteiros, levaríamos horas. Não sei da onde tiraram essa ideia de que criança precisa ser tratada com “tati-bitati” ou “conteúdo mastigado”. Nem em Vila Sésamo (1972) era assim, gente!

Não sou saudosista, não quero um novo “Castelo”. Por diversas razões o “Castelo” seria hoje um programa atrasado para a veloz criança “pós-2000”. Agora, achar que uma personagem animada, fazendo perguntas óbvias para a tela, é atual e vai ter o mesmo efeito educativo: sinto muito, isso é história para americano ganhar dinheiro...

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