Diálogos

A Dança Que Luta

Por: Winnie Kássimo

03/08/2020


Eu lembro que, na praça da minha cidade, no litoral de Pernambuco, quase toda semana se reunia um grupo de capoeira. Era muito legal de assistir, e sempre juntava um monte de gente ao redor para olhar. Todas as pessoas ficavam maravilhadas! Lembro também de uma vez que a mãe de uma colega nos levou embora dali, porque capoeira era "coisa de maconheiro". Mais ou menos na mesma época, estreou uma nova temporada da Malhação. Foi a de Pedro e Julia, lembro bem. Nessa época, sempre havia um esporte associado ao colégio (acho que eram as tentativas de se manter fiéis ao nome original da novela, que de malhação real já não tinha quase nada) e, dessa vez, era a capoeira. A mãe da minha colega era muito fã do Henri Castelli, sempre parava e assistia um pouco conosco. Amava quando aparecia alguma cena com capoeira "olha como eles ficam lindos fazendo esporte", ela dizia. Na época, eu não entendia muito bem por que a mesma capoeira que na TV era um esporte super positivo, na roda da pracinha era coisa de maconheiro e era para ficar longe. Só muito tempo depois aprendi a palavra e o conceito de enbranquecimento. O famoso whitewashing de que todo mundo reclama, mas quando é "bem feito" todo mundo ama (Deus tá vendo o quão pouco você reclamou de Dr. Estranho só porque a Anciã foi a Tilda Swinton, mas isso é conversa de outro momento. Eu fiz isso, também).

O fato é que em muitos lugares do Brasil inteiro, principalmente no Nordeste, se pratica a capoeira como forma de arte e esporte, mas a imagem que fica no fundo do imaginário coletivo é sempre vagamente ligada à cultura negra, vez ou outra o nome de um mestre é citado… E é isso. Só depois que comecei a me aprofundar mais na história preta brasileira foi que arranhei a superfície do que é essa arte maravilhosa e forma intensa de luta. Então, veja você como foi a história, que pode ter começado em Palmares no final do século XVI, mas se popularizou pela Bahia no século XVII e só teve seus primeiros registros de práticas detalhadas no século XIX.

O tráfico humano no Brasil começou em 1530, e desde essa época, preto nenhum gostou dessa conversa de viver escravizado. Então, desde o primeiro navio negreiro houve também as primeiras fugas. Os senhores de engenho e feitores todos armados até os dentes. Os escravizados, desarmados, tiveram que se virar. E, somando artes marciais de várias nações africanas que se misturaram na chegada ao cativeiro (porque é claro que não iam deixar nações juntas! Separado é bom, que desorganiza) nasceu a capoeira, uma forma de luta tão sensacional que foi defesa de escravizados fugitivos pelos séculos seguintes. Palmares se defendeu assim por cerca de 100 anos. Um governador-geral da Capitania de Pernambuco escrevia, horrorizado, em pleno século XVII, que era mais difícil derrotar os quilombolas que os invasores holandeses.

Até que veio a abolição, o consequente abandono e um final de século XIX que já tinha ali suas sementes do plano eugenista que norteia o Brasil (mas essa também é uma conversa para outro momento. Me lembrem depois). A população preta ficou "livre", mas ainda acorrentada pelo total abandono. A libertação formal não veio com medida alguma que nos protegesse enquanto povo… Então o povo tomou o assunto nas mãos. Praticantes de capoeira passaram a usá-la para fins menos lícitos que a defesa, na busca de sobrevivência. Dessa forma, a capoeira foi proibida legalmente no Brasil, só voltando à legalidade na década de 1940. Desde então, aos poucos foi sendo tratada como esporte e, mais recentemente como forma de arte, mas ainda extremamente marginalizada. Coisa de bandido, coisa de maconheiro.

Hoje a capoeira é reconhecida como Patrimônio Imaterial do Brasil pelo falecido Ministério da Cultura (um ministério elegante, de tempos mais civilizados) em 2008 e a UNESCO reconhece como Patrimônio Imaterial da Humanidade desde 2014. Assim como o frevo, é uma arte que está preservada, oficialmente. Cabe a nós mantê-la presente na realidade dos brasileiros como arte viva e em movimento. Se puder não embranquecer, agradecemos também.

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